O Mosteiro da Vila Esperança

Era uma noite fria e escura e as estrelas quase não apareciam no céu.

Ao longe, a única luz que era possível enxergar era a da lanterna da torre do mosteiro do Padre Antonio. Assim terminava o outono na Vila Esperança, um lugar comum no meio do nada.

Em meio à quietude da noite fria, um choro se ouviu no mosteiro.

Distante muitos dias e muitas noites de viagem da cidade mais próxima, a Vila Esperança recebeu esse nome de um velho Português, que um dia resolveu se estabelecer ali no meio do mato.

Cansado de tentar aventuras na corte portuguesa, e ainda mais cansado de desbravar as matas brasileiras, decidiu ficar por ali com todos os seus bens e criados, próximo da primeira nascente que encontrou em meio a Serra do Mar. Depois de muito tempo, o velho Português começou a ser carinhosamente apelidado de Portuga.

A Vila Esperança, pelo seu porte, mais parecia uma aldeia. Umas poucas casas aqui e ali, um casarão com muitos quartos próximo à nascente, e ao lado dele o velho mosteiro. A vila tinha por volta de uns 90 habitantes, talvez um pouco mais. A verdade era que ninguém se incomodava de contar.

Sem nenhuma atividade agrícola ou rural, e sem a menor atividade econômica, Vila Esperança servia apenas como moradia para seus habitantes, que cuidavam cada um de suas próprias vidas, e como um ponto de descanso para aqueles que se aventuravam pela Mata Atlântica.

Para esses aventureiros insólitos, o único lugar onde poderiam descansar um pouco era uma casa conhecida localmente como casarão. O dono do casarão alugava um de seus quartos, sempre a troco de quase nada em dinheiro, ou algum objeto de valor.

Nabuco José Joaquim da Silva. Até hoje ninguém sabe se é verdade, mas era assim que Nabucão, como as pessoas da vila o chamavam, soletrava seu nome completo nos dias de verão, quando ficava sentado à frente do casarão tomando a água que o passarinho não bebe, e que ele mesmo fabricava.

Inventava de servir aos seus visitantes – quem quer que fosse – uma comida muito gordurenta que segundo ele era muito usada pelos Bandeirantes nas incursões pelas matas e que segundo ele, sustentava um homem “por muitos meses”. Ele sempre afirmava que ele mesmo a comia e servia para suas duas filhas. Ao que parece, pelo tamanho das duas, era verdade.

O Mosteiro era administrado pelo Padre Antônio, e era a única coisa que funcionava de forma organizada na vila. Padre Antônio foi morar em Vila Esperança a pedido do Portuga, em uma de suas viagens à Vila São de Paulo.

Segundo o Portuga, toda vila precisava ter um padre e um mosteiro. Na época em que recebeu o convite do Portuga, Padre Antônio trabalhava na missão dos padres fundadores do colégio jesuíta da Vila de São Paulo, em um trabalho missionário para catequizar os Índios.

Aparentemente comovido com a solicitação do Portuga, Padre Antônio intercedeu junto ao padre responsável pela missão, e recebeu autorização para partir com o Portuga, levando consigo a missão de construir um colégio e evangelizar as pessoas.

O Portuga era um homem muito fiel a Cristo e a seus ensinamentos. Tratava muito bem seus servos, como se fossem membros da família, e todos lhe eram muito gratos por isso.

Enquanto a maioria dos “Paulistas” estavam em uma intensa corrida em direção às matas na luta por conquistar e escravizar os Índios para mão de obra, o Portuga sempre dizia: “a Bíblia diz, o que o homem semear, isso também ceifará”.

Ele dizia isso com a fé de que as pessoas da Vila Esperança não iriam cair no erro de se deixar levar pela ganância. Após sua morte, o Portuga deixou para o Padre Antônio o desejo de que ele tomasse conta das pessoas e da vila, enquanto ela existisse.

Padre Antônio era uma figura muito amável e carinhosa. Sempre com um sorriso nos lábios, e um olhar amistoso, era um velhinho que amansava as pessoas apenas com o seu olhar. Todos na vila o amavam e o respeitavam, não apenas por seu jeito doce, mas também por seu constante cuidado, e por sempre se preocupar com o bem estar das pessoas acima de tudo.

Muitos anos se passaram, e Padre Antônio já estava com uma idade avançada,  e as pessoas da Vila começavam a ficar preocupados com sua saúde. Um dia, em meio à quietude da noite fria de um final de outono, um choro se ouviu no mosteiro, e ele deu seu último suspiro.