O Direito de Escolha

Acho que vamos concordar (e talvez só nisso) que estamos vivendo nestes últimos anos um aumento nas discussões e nos debates em torno da questão sexual. Existe todo tipo de opinião. Política, religiosa, social, etc.

Em meio a toda essa discussão — e eu quero evitar a discussão em si — muitos são os argumentos que todos apresentam.

Quero evitar a discussão em si porque neste artigo pretendo me debruçar sobre uma questão filosófica, o que é um pouco difícil quando se trata desse tema. Imediatamente ao abordar a questão sexual já surge o debate do “certo/errado”, “concordo/não concordo”. Evite isso a todo custo ou pode perder uma importante oportunidade de reconsiderar alguns conceitos.

A qual questão me refiro? A do direito de escolha. Quero investigar a relação entre orientação sexual “nativa”, se é que posso chamar assim, da orientação sexual por opção, se é que ela existe. Lembre-se de que estamos no plano das idéias.

Vou demonstrar que discutir o direito de opção leva aos seguintes desdobramentos: a) justificar o respeito ao homossexual com base no fato de que sua orientação sexual é nativa pode levar ao reforço da idéia de que ser homossexual é uma transgressão, e b) Talvez seja necessário rever o papel da luta pelo Respeito na questão da orientação sexual.

Ao longo do artigo também tento repensar alguns temas, como o argumento da “incompatibilidade biológica”, e o comportamento dos religiosos, principalmente cristãos, nesse tema.

Mas vamos primeiro contextualizar um pouco. As pessoas que defendem a causa LGBTQ+ — e eu sou uma delas — têm os seus argumentos. 

Uma das primeiras coisas que penso é: em um cenário ideal, o debate nem deveria existir. Já entenderíamos que somos todos iguais. Mas esse borbulhar de opiniões e discussões que acontecem de uma certa forma me tranquilizam de que estamos caminhando em direção a esse cenário.

Esse argumento é fácil pra mim, que não sofro com isso. Na verdade sofro um pouco indiretamente, na forma de retaliações religiosas e sociais por apoiar a luta contra o preconceito. Mas quem sofre diretamente precisa de medidas urgentes e imediatas e não tem tempo nem paciência pra aguardar a sociedade avançar a passos de formiga.

Eu quero me debruçar hoje sobre um argumento específico. Eu já o usei bastante e vejo muitos defensores e apoiadores da causa LGBTQ+ e da luta contra o preconceito usarem: o argumento acerca da essência do indivíduo. 

O argumento acerca da essência diz que um homossexual é homossexual, ele não decidiu ser homossexual. Ele nasceu assim. Ninguém optaria por isso, ainda mais vendo e sabendo o que sofrem os homossexuais.

Portanto não é uma opção, é uma orientação. Antigamente se dizia “condição”, mas este termo foi descontinuado, por ter implicações negativas, como se fosse uma doença ou deficiência.

Pois bem. Quando eu concluo que ninguém decide ser homossexual, eu estou concluindo que ninguém opta por isso. E quando eu uso isso como argumento, na luta contra o preconceito, eu acabo criando uma ligação lógica com a questão da aceitação e do respeito, ou seja, eu preciso respeitar e aceitar pois essa pessoa é assim (essência). Ela não decidiu ser assim.

Esse argumento fazia todo sentido pra mim, mas a partir de algum momento eu comecei a ter dúvidas: quando eu estabeleço o argumento de que eu preciso aceitar a orientação sexual de uma pessoa porque ela nasceu assim, será que eu estou abrindo margem para concluir que, se fosse o contrário, se ela tivesse escolhido isso, eu não precisaria respeitar? 

Será que eu simplesmente não tenho a obrigação moral de respeitar a sexualidade do outro, e ponto?

Se a questão fundamental é o respeito, não deveria haver respeito por tudo, inclusive pelo direito de escolha?

Isso leva a ainda mais perguntas. Por exemplo: é mais fácil pra mim “aceitar” uma situação somente quando a pessoa envolvida na situação em questão não teve escolha? Fazer isso não é o mesmo que considerar a tal situação uma “transgressão”?

Explico.

Imagine uma pessoa que precisa decidir entre matar um ladrão que invadiu sua casa e permitir que ele machuque seus filhos. Há uma opção. Existe uma escolha a ser feita. Mas todos nós sabemos que se a pessoa decidir matar o ladrão ela será perdoada. Este é um cenário onde, mesmo havendo uma escolha, nós sabemos qual é a escolha óbvia.

Porém matar é uma transgressão. Mas naquele caso “não havia escolha” e eu consigo aceitar isso muito facilmente. Portanto a pessoa não tem culpa dessa transgressão. Não faz sentido punir essa pessoa, pois ela não tinha escolha de fato, era a vida do ladrão ou a de seus filhos. Ela não decidiu simplesmente assassinar alguém.

Quando eu estabeleço o mesmo raciocínio para a questão sexual e digo que “não houve uma escolha”, a pessoa nasceu assim, não estou no fundo dizendo que tal pessoa “não tem culpa de sua transgressão”?

Como eu disse no início, ao justificar o respeito ao homossexual com base no argumento de que sua orientação sexual é nativa não levo ao reforço do conceito de que ser homossexual é uma transgressão?

É como dizer: ele não tem culpa de ser assim. Isso soa estranho para você, como soa para mim? Não é um pensamento que esteja necessariamente errado. Afinal, de fato, ninguém tem culpa de ser como é. Mas me incomoda a diferença do “peso” e da “medida”. Eu não preciso dizer que não tenho culpa de ser hétero.

Agora vamos fazer o pensamento inverso.

Imagine uma situação onde não há absolutamente nenhuma transgressão. Por exemplo, uma pessoa que está fazendo aniversário. Faz sentido você dizer: essa pessoa está de aniversário porque ela nasceu hoje, ela não teve escolha.

De fato essa pessoa não teve escolha. Ela nasceu hoje e por isso é seu aniversário. Fazer aniversário não é uma transgressão, então você não vê ninguém por aí dizendo: aceite, respeite.

Agora imagine que essa mesma pessoa não gosta do dia em que nasceu e resolve tentar na justiça uma mudança em sua certidão de nascimento. Imagine que ela consegue. O que você diria? Alguns até poderiam dizer: credo, nada a ver. Mas a maioria dirá: o dia que ela quer fazer aniversário não me interessa.

Portanto, pelo fato do aniversário não ser considerado uma transgressão, eu consigo aceitar isso seja em um cenário onde a pessoa não teve escolha e comemora no dia em que nasceu, seja em um cenário mais extremo onde alguém resolve mudar sua certidão. Não há um esforço para aceitar isso. Podemos até discutir se há de fato um “respeito em andamento”, ou se não é apenas uma situação corriqueira que passa despercebida.

Se alguém tenta me convencer a respeitar um aniversário, soará estranho. Porque alguém precisa me convencer disso? O que há de errado? Por isso, quando alguém usa esse argumento na questão sexual, não está na verdade reforçando que há uma transgressão?

E porque eu não acho estranho, como no caso do aniversário, que alguém tente me convencer (ou aos outros) a aceitar? Porque eu tenho em mim o conceito de que há uma transgressão.

Neste caso, minha luta não deveria ser contra isso?

Ou seja, minha luta não pode ser a de elaborar um argumento de “não opção” e tentar usá-lo para justificar a aceitação, mas sim em estabelecer que, tendo havido ou não uma escolha, não existe transgressão.

Afinal de contas, é uma transgressão alguém amar uma pessoa do mesmo sexo?

É de fato válido o argumento de que homossexuais “são errados” porque não podem procriar?

Se o que está em questão é o amor entre duas pessoas, faz sentido usar a impossibilidade biológica de procriação como um argumento contra? Afinal, existem muitas formas de estabelecer uma família. 

Se a impossibilidade biológica de procriar é um argumento válido contra o relacionamento, por que ele não é usado para casais heterossexuais que também não podem procriar? Porque são heterossexuais? Essa resposta não invalidaria todo o argumento?

Algumas pessoas dizem que homossexuais são promíscuos, mas não sabem definir exatamente a que se referem, a não ser citando os casos em que homossexuais se relacionam apenas buscando sexo, ou partindo para casos extremos. Quando você parte para um caso extremo, você está declarando falida sua participação em uma discussão. Você precisa aprender a ter argumentos válidos e concretos.

Novamente fica a mesma pergunta: Estabelecer que homossexuais são promíscuos usando casos em que existem homossexuais que buscam apenas sexo, é válido? A qualquer dia em que você for a uma “balada” na capital paulistana (ou qualquer outra cidade evidentemente), verá dezenas de casais em busca de sexo.

Por que então a casa onde ocorrem os encontros LGBTQ+ são consideradas “antros de perdição”?

E nos casos onde heterossexuais buscam relacionamentos de puro sexo, sem a menor possibilidade de decidirem procriar. Não vale o argumento da procriação? Ou seja, mesmo não querendo e não procriando, milhões de heterossexuais que se relacionam buscando apenas sexo não estão transgredindo.

Um casal homossexual que deseja constituir família e tenta usar os mecanismos que hoje estão à disposição para isso, entre eles a adoção por exemplo, está transgredindo? É mais fácil para mim aceitar um casal homossexual “não promíscuo”?

Se a resposta para essa pergunta for “sim”, meu problema então é com a homossexualidade, ou com a promiscuidade? Se a resposta for “promiscuidade”, porque não há retaliação social e religiosa para propagandas de shows onde aparece um casal de namorados se relacionando, mas se nesta propagando houver dois homens se beijando haverá uma revolta?

Homossexuais que fazem as mesmas coisas que os heterossexuais quando buscam sexo por diversão, estão transgredindo, não por fazerem sexo sem compromisso, mas sim por serem homossexuais fazendo sexo sem compromisso.

Essas questões todas são mais difíceis para os religiosos, porque para eles é pecado e pronto. Religiosos têm muita dificuldade de sair do papel de Deus, ainda mais nesta questão.

Explico.

Quando você pergunta a um cristão se ele aceita um relacionamento homossexual, ele vai dizer que não. Porque a Bíblia diz que é pecado, simples assim.

Mas quando você tenta dialogar, tratando das questões do amor e respeito, o cristão diz que ama o homossexual. E faz isso num tom condescendente. Seu principal argumento é: Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.

Aí é que mora o perigo. O cristão não é Deus. Portanto se há sobre qualquer pessoa o papel de odiar o pecado, esta pessoa é Deus.

Se há alguém em condições de decidir o destino de alguém baseado em sua conduta, esse alguém é Deus. E não precisamos entrar na seara se ele irá ou não condenar ao inferno. O fato apenas é que este papel é dele.

Portanto toda vez que o cristão usa o argumento de que ama o homossexual mas odeia sua prática, alegoricamente falando ele está cometendo o mesmo erro de Lúcifer: querendo se assentar no trono de Deus.

Ao passo que Jesus, sendo Deus, desceu de seu trono e viveu entre os homens ensinando e praticando amor e aceitação. Curiosamente este mesmo Jesus era acusado pelos religiosos da época de se envolver com pecadores.

Portanto neste quesito não há diálogo com religiosos. A eles eu diria apenas: Jonas 4:4.

Mas se você está disposto a refletir precisa pensar nisso: é errado o direito de escolha por ser homossexual? Mais uma vez: não está em discussão se alguém faria ou não essa escolha.

Faz sentido usar a “essência” como argumento a favor? O argumento principal não deveria ser o de que não há transgressão? E mais: tenho o direito de não respeitar?

Aqui vamos para um segundo ponto, porque a própria questão do respeito me gera algumas dúvidas. 

Vou explicar.

Imagine uma situação em que você diz: eu respeito sua opinião, mas a minha opinião é outra.

Quando algo está a mercê deste tipo de pensamento, se estabelece que há margem para considerar algo errado ou impróprio ainda que não seja um “pecado capital”.

Por exemplo: divergências políticas. Eu tenho a minha, mas respeito a sua. Eu posso ser um defensor do capitalismo e encontrar mil erros e problemas no socialismo, ou vice-versa. Mas sendo capitalista, respeito o fato de você ser socialista. Isso é a chamada democracia, liberdade, direito a opinião, ao pensamento.

Agora uma pergunta: seja por opção ou não, a orientação sexual de uma pessoa deveria estar à mercê de uma análise assim? Não existem valores que deveriam estar acima dessa discussão?

Vou exemplificar. Imagine que uma pessoa está viva. Eu viro pra ela e digo: você está viva e eu respeito isso, mas não concordo. Obviamente esse pensamento não faz sentido. Estar vivo não é uma questão sujeita à discussão ou à mercê do respeito de quem quer que seja. 

Isso me diz que existem valores e princípios que transcendem a certas discussões. Será que a orientação sexual não seria uma delas? Qual é, afinal, a grande importância em relação à orientação sexual do próximo (por opção ou não), que me leva a considerar este um assunto tão prioritário?

Porque esse fato — alguém ser homossexual — não tem a mesma importância de um aniversário, ou seja: nenhuma?

Aqui há mais um ponto curioso. De uma maneira geral, a sociedade mesmo não religiosa não parece “aceitar” esse assunto. De onde isso vem? Seria um reflexo da nossa “educação social cristã”?

Fiz muitas perguntas aqui, que precisam ser pensadas e debatidas. Mas não é possível fazer isso com a mente fechada, ou com “ouvido pronto”. E coloquei dois argumentos que fazem mais sentido pra mim hoje.

O primeiro é que não importa se uma pessoa de fato decide ou não ser homossexual. No fundo existe todo tipo de situação, alguns nascem, alguns optam, alguns são curiosos. Seja o que for, não encontro espaço para considerar a orientação ou experiência sexual de uma pessoa como uma transgressão, portanto não encontro a necessidade de exigir respeito com base no argumento da essência.

O segunda: a luta deve ser em um âmbito ainda mais elevado. Há que se exigir respeito, mas precisamos escalar o nível da luta. A orientação ou experiência sexual de uma pessoa não está sujeita ao meu respeito, ou ao seu. É uma manifestação superior da alma, particular (sendo ou não privada), e individual. Você não está em posição de julgar isso.

Faço aqui uma consideração final.

Escuto muito os seguintes termos: “agora os gays querem tudo”, “agora querem sair por aí se beijando na rua”, “a rua x, ou a rua y, ou o shopping tal, virou uma promiscuidade”, “não vejo um casal hétero se comendo no meio da rua”.

Se você concorda com essas colocações, você precisa seriamente parar e pensar mais a respeito de toda essa questão, e rever praticamente todos os seus conceitos.

Eu concordo que em algumas situações, a manifestação pública de afeto entre homossexuais se mostra mais escandalosa do que a dos heterossexuais. Respondo com uma ilustração: como você iria se comportar, ao ganhar liberdade após anos de escravidão? Não faria festa pelas ruas?

Acho normal isso acontecer, e após muita reflexão já não me ofende. E acho ainda que esses extremos de manifestação devem diminuir, à medida em que o homossexual, a classe LGBTQ+ for alcançando o que acredito ser o seu maior anseio: e de passar despercebido como apenas mais um cidadão.

Pense!

Valores Cristãos?

Certa vez, ouvi de um evangélico a seguinte observação:

“Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.”

Essa é uma observação muito comum no meio religioso, quando um cristão/evangélico precisa justificar seus julgamentos sobre determinado assunto.

A frase que estou citando surgiu quando estávamos em uma conversa sobre homossexualidade. O argumento dessa pessoa veio com base nessa afirmação, onde ela buscou defender que Deus ama a todos, inclusive os homossexuais, mas não ama e nem pode compactuar com sua “conduta pecaminosa”.

Uma das coisas que me deixou mais curioso foi: Onde está esse versículo? Afinal, os cristãos/evangélicos se orgulham por ter suas atitudes baseadas “na palavra”. Infelizmente porém, esse versículo não existe e essa é apenas mais uma interpretação das escrituras que é amplamente utilizada pelos evangélicos sem questionamentos.

De qualquer maneira, existe algo nessa afirmação que chama minha atenção, quer o versículo exista ou não.

Observe cuidadosamente a situação e a frase.

“Eu não aceito a homossexualidade, porque a Bíblia diz que isso é errado. Eu não odeio o homossexual, eu não tenho raiva e nem preconceitos contra o homossexual. Eu apenas não compactuo com suas ações pecaminosas. Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.”

Quando você usa algo ou alguém para defender uma posição pessoal, você obrigatoriamente está pegando emprestado para si mesmo o mesmo status desse algo ou alguém. Você está se colocando em pé de igualdade.  No caso acima, a pessoa está obrigatoriamente se colocando no mesmo patamar de Deus. Assim como Deus, eu também amo o pecador, e odeio o pecado.

E qual o problema? Não posso querer agir como meu Pai? Se você for evangélico ou cristão provavelmente está se perguntando isso.

E é neste ponto em que eu começo a me perguntar muitas coisas.

Existe todo um enorme conjunto de atitudes divinas, que são consideradas difíceis demais para serem imitadas. Deus, por exemplo, amou a todos os seres humanos acima de qualquer coisa, ao ponto de entregar seu único filho. Isso é muito difícil de fazer.

Deus é justo, e age com absoluta e total imparcialidade em qualquer situação. Deus é paciente, amoroso, compreensivo. Deus não faz as coisas esperando algo em troca, ele se importa com a sua felicidade. Deus sempre estende a mão ao aflito, sempre estende a mão ao pecador e ao necessitado. Isso tudo é muito difícil, para não dizer quase impossível de fazer.

Porém, em compensação, algumas das atitudes de Deus são muito fáceis de imitar. Deus odeia o pecado, então eu também odeio o pecado. Não posso ver um pecador na minha frente. Fico admirado quando as pesssoas pecam. Comento esse assunto como todos os meus irmãos santos em Cristo.

Deus não se envolve com o pecado, então eu também não me assento na roda dos escarnecedores. Não me misturo com os lascivos, idólatras e beberrões. Deus odeia o pecado, eu também odeio o pecado. Deus ama quem dá com alegria, eu também amo quem dá com alegria, me impressiono quando descubro que certo irmão deu uma generosa quantia para a igreja, quanta santidade! Deus odeia a mentira, eu também odeio a mentira. Se Deus odeia as obras da carne, eu também odeio as obras da carne.

Mas isso só se for na segunda ou terceira pessoa.

Eu jamais considero meus atos como atos pecaminosos. Aquele CDs e DVDs piratas que estão abarrotando as minhas estantes, não me incomodam. Aquelas mentirinhas que eu contei ao telefone não me incomoda. Aquele dinheirinho que eu deixo na carteira caso o guarda de trânsito pare o meu carro também não. Aquela visitinha que eu fiz naquele site pornográfico foi apenas um pequeno deslize.

O fato de eu ficar fofocando sobre a vida de outras pessoas, fazendo julgamentos e sentenciando as pessoas, também não me incomoda. O que me incomoda é saber que meu irmão pecou.

É incrível como um cristão/evangélico, que se diz seguidor de um mestre que sofreu todos os tipos de injustiça por amor das pessoas, levanta bandeiras com o nome dele escrito, veste camisetas com o nome dele escrito, frequenta comunidades com o nome desse mestre gravado em legras garrafais nas paredes, na primeira oportunidade que tem, se revolta contra pessoas que cometeram pecados, e as julga e sentencia com a velocidade da luz.

Isso é claramente um sinal da hipocrisia que predomina nesse meio.

Um verdadeiro seguidor de um mestre que jamais condenou ninguém, não condenaria ninguém. Um seguidor daquele que sofreu injustiças e ficou calado, sofreria injustiças e ficaria calado. Um seguidor daquele que quando alguém pedia emprestado ele dava, faria o mesmo.

Um seguidor daquele que amou a todos, também amaria. Um seguidor daquele que andava com as pessoas que eram consideradas da pior espécie, porque sempre acreditava no potencial delas em se tornarem pessoas melhores, faria o mesmo.

Mas  hoje é motivo de escândalo no meio evangélico, alguém pecar.

Os irmãos e irmãs da igreja, ficam escandalizados, levam as mãos à boca e comentam pelos corredores. Hipócritas.

E seria bom se parasse por aí, mas não é só isso.

A santidade desses irmãos é tão prejudicada pelo pecado alheio, que eles não conseguem nem louvar ao Senhor, veja só. Eles não suportam essa situação de pecado, e saem da igreja, procurando um lugar onde a santidade deles não seja tão atingida. Quanta santidade! Quanta unção! Quando poder do Espírito!

O pecado alheio incomoda tanto esses irmãos santificados, que para eles se torna até difícil buscar ao Senhor, num meio tão corrompido. Hipócritas.

Enquanto isso, as pessoas continuam precisando de ajuda, precisando ouvir uma palavra amiga, precisando de apoio em suas vidas. Precisando de alguém que lhes diga que tudo vai dar certo. Precisando de uma atitude pequena, mas que seja positiva.

Mas o cristão de hoje em dia está preocupado demais em manter sua estrutura religiosa funcionando, e não tem tempo de se preocupar com as pessoas e com o que elas estão sentindo. O meio evangélico é um meio que vive e sobrevive de aparências, se alimenta de status e reputação, e é tão vazio quanto a casca de um besouro.

Um meio onde as pessoas escondem seus pecados evidenciando os pecados dos outros.

Mas não podemos condenar as pessoas por agirem assim. Em primeiro lugar, porque não podemos condenar ninguém a nada. Em segundo lugar, porque não podemos ensinar durante décadas toda uma geração uma série de conceitos e valores errados, para depois criticar as pessoas que agora aprenderam e praticam esses valores.

Está na hora de pastores e líderes começarem a ensinar os valores corretos.

 

Hipocrisia: A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, idéias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. (Fonte: Wikipédia).