A Ordem Sagrada do Cristal Mágico – Parte 2

Seguiam pelas ruas da cidade, o mendigo e o velho.

‘Vai demorar muito?’, perguntou o mendigo.

‘Já estamos chegando, é logo ali depois daquela favela.’, disse o velho.

De repente, dois favelados observaram os dois mendigos caminhando, e perguntaram:

‘O que é isso, uma procissão dos miseráveis?’, disseram os favelados.

‘Não interessa.’, retrucou o mendigo.

‘Estamos indo para nosso território.’, disse o velho.

‘Esse velho já caducou faz tempo’, pensou o mendigo.

‘Que território?’, perguntaram os favelados.

‘Se vocês querem saber, vão ter que nos acompanhar’, disse o velho.

Como não tinham nada pra fazer, os dois favelados começaram a seguir o mendigo e o velho pelas ruas da cidade.

De repente, uma viatura policial aborda o grupo, e o policial pergunta: ‘esse grupinho não tá pensando em fazer besteira né!’

Na mesma hora os dois favelados, que provavelmente estavam devendo alguma coisa, começaram a suar frio.

‘Que nervoso é esse?’, perguntou um dos policiais.

Percebendo que o clima estava esquentando, o mendigo tentou amenizar: ‘seu guarda, estamos só de passagem, não vamos arrumar problemas.’

De repente, um dos policiais diz: ‘ei, eu conheço você, li uma matéria no jornal, sobre sua bola de gude, você é gente boa! Podem seguir aí, e não se metam em encrencas.’

Dizendo isso, os policiais foram embora.

Os dois favelados olharam para o mendigo e disseram: ‘cara que sorte você estar com a gente, se não fosse por isso, a essa altura nós já estaríamos em cana. A partir de agora você pode contar com a gente para o que precisar’.

‘Eu te disse que essa bola de gude é magica.’, disse o velho com um brilho místico no olhar.

‘Ai meu Deus’, pensou o mendigo.

Tudo o que ele queria era sossego e agora tinha uma turma de seguidores devotos da sua bolinha de gude.

Enquanto ainda estava pensando numa forma de se livrar dessa dor de cabeça um grupo de cinco mendigos se aproxima.

‘Como vocês fizeram pra se livrar daquela viatura tão facilmente? Nós acabamos de levar uma geral bem dolorida!’.

‘Nós estamos com o portador da bola de gude da sorte’, disse um dos favelados.

‘Bola de gude da sorte não’, respondeu o velho, ‘bola de gude mágica!’

‘Como assim?’, perguntou um dos cinco.

Foi preciso mais de uma hora para explicar aos cinco mendigos toda a historia, já com os aumentos místicos do velho, e os aumentos devotos dos dois favelados.

As tentativas do mendigo de explicar a natureza real das situações era constantemente ignorada.

Sem pensar duas vezes, os cinco mendigos se juntaram ao grupo que agora já se tornava um bando.

‘Onde isso vai parar?’, o mendigo se perguntava.

(Continua)

A Ordem Sagrada do Cristal Mágico – Parte 1

Era uma vez, há muitos anos atrás, um mendigo.

Ele estava andando pela rua e encontrou uma bolinha de gude. Ele olhou pra ela e pensou ‘que sorte, encontrei uma bolinha de gude inteira, sem um risco’.

O mendigo pegou a bolinha de gude pra si, e guardou no bolso.

Um belo dia, o mesmo mendigo estava passeando desatento pelas ruas da cidade, pensando em como faria pra arrumar uns trocados, quando de repente ele ouviu alguém gritar ‘pega ladrão!’.

Na mesma hora ele se abaixou pensando ‘droga me pegaram’, quando então percebeu que não era com ele. Um homem vinha correndo na direção dele a toda velocidade, e atrás dele uma senhora.

‘To fora’, pensou o mendigo, e foi saindo de fininho, mas quando ele se levantou pra ir embora a bolinha de gude escorregou do seu bolso, e foi rolando pela rua bem na frente do ladrão que vinha correndo.

O ladrão escorregou, e caiu de costas no chão desmaiado.

O mendigo, que tinha percebido que sua bolinha de gude havia escapado, já estava em cima do ladrão, procurando por ela.

Aquela senhora, dona da bolsa que o ladrão havia roubado chegou bem na hora em que o mendigo achava sua bolinha.

‘Sua bolsa está aí senhora’, disse o mendigo, ‘eu só quero a minha bolinha’.

‘Obrigada, obrigada, muito obrigada’ repetia a senhora ao mendigo, várias vezes. ‘Esse mendigo salvou minha bolsa’, gritava ela.

O mendigo já meio incomodado agradeceu e foi se retirando.

Duas semanas depois, o mendigo estava juntando uns pedaços de jornal pra dormir embaixo do viaduto, quando ele escuta ao lado dele um outro mendigo, bem mais velho do que ele, dizendo:

‘Vejam só, se não é o dono da bola de gude mágica.’

‘Bola de gude mágica?’, retrucou ele desconfiado, já apalpando sua tão querida bolinha de gude.

‘Sim, sim leia!’, disse o velho, que tinha uma barba cinzenta que ia até o umbigo, pegando do lixo um pedaço de jornal velho onde tinha uma matéria que dizia:

‘BOLINHA DA SORTE SALVA BOLSA DE SENHORA.’, com data do dia seguinte ao ocorrido

Ao que tudo indica, alguém havia narrado o fato a um jornalista que achou por bem publicar a história no jornal do bairro.

‘Essa matéria não tá dizendo que minha bola de gude é mágica’, observou o mendigo.

‘Sim, meu caro, mas uma bola de gude com essas propriedades salvadoras só pode ser magica!’, disse o velho.

‘Tá bom, que seja’, disse o mendigo, e pensou ‘esse velho deve ter fugido do manicômio’.

Na manhã seguinte, o mendigo resolveu mudar para outro viaduto, e quando estava se retirando percebeu que o velho estava vindo junto com ele.

‘Onde você vai dono da bola mágica?’, perguntou o velho.

‘Não te interessa’, retrucou o mendigo.

‘Ei, eu sei de um lugar bom pra nós, venha’.

O mendigo pensou em mandar o velho arrumar outra pessoa pra atormentar, mas depois pensou que, se esse velho pensava que a bola de gude dele era mágica, e queria tratar ele como alguma espécie de mendigo vip, talvez isso pudesse ser bem interessante pra ele.

(Continua)