Convém?

Uma vez me perguntaram:

“É proibido ouvir música do mundo?”

Deixando de lado aqui a discussão do “o que é mundo?”, eu e você sabemos que a pessoa que faz essa pergunta quer saber se ela pode ouvir música que não é gospel.

É incrível como essa dúvida é uma dúvida comum. Normalmente esse assunto gera muita discussão. Os líderes religiosos um pouco mais sensatos não vão querer entrar em debates com um tema desnecessário como esse e vão usar discursos brandos e abstratos.

Alguns porém vão dizer que isso é proibido.

Um dia, uma evangélica me perguntou com um ar desafiador, quando eu tentei gerar uma discussão em torno disso: “essa música está louvando ao nome do Senhor?”

Eu não poderia dizer que sim, porque a música tinha visivelmente outras intenções. E não estou dizendo que eram intenções erradas, apenas que a música não tinha a intenção de louvar ao Senhor.

Esse argumento deixa você sem saída, porque se a música não glorifica ao nome do Senhor, você tem mais do que os argumentos que precisaria ter para dizer que não deve ouví-la.

Mas aí é que se encontra um engano muito comum. Eu não preciso ouvir apenas as músicas que glorifiquem o nome do Senhor. Eu posso ouvir outras músicas. Eu posso ouvir o que eu gosto de ouvir.

É um apelo muito comum do evangélico estabelecer que nós só podemos fazer as coisas que glorifiquem ao Senhor, e com isso determinar uma enorme lista de “isso pode” e “isso não pode”.

Porém, o evangélico parece não saber que não é em torno disso que nossa vida deve girar.

Abandone a discussão do “pode” e “não pode”.

Abandone os intermináveis  debates do “todas as coisas me são lícitas mas nem todas me convém”.

Muitas vezes o que “convém” está sendo determinado por interesses dos mais variados tipos, e você está achando que está obedecendo ao Senhor.

Você está sendo enganado por esse discurso.

Você pode ouvir as músicas que gosta.

Mas a pergunta que deveria existir aqui, não é se você “pode” ou “não pode”. A pergunta deveria ser: estou causando mal a alguém? Estou ferindo meu irmão? Estou ferindo meu próximo?

Em torno disso que nossa vida deveria girar.

Sopa ou Churrasco?

Estive lendo um dia desses um texto que me deixou muito intrigado.

Eu acho muito divertido quando consigo detectar certos mistérios escondidos nos textos bíblicos e nessas horas ler a bíblia se torna uma aventura, uma exploração de terras desconhecidas.

O texto fala de quando Eliseu estava com seus discípulos em Israel, durante um tempo de fome, e ele manda um de seus servos buscar ingredientes para fazer uma sopa. O servo pega os ingredientes errados, e acaba jogando veneno na sopa. Eliseu então intervém e cura a sopa milagrosamente de seu veneno.

Eis o texto:

2 Reis 4:38-41

“E, voltando Eliseu a Gilgal, havia fome naquela terra, e os filhos dos profetas estavam assentados na sua presença; e disse ao seu servo: Põe a panela grande ao lume, e faze um caldo de ervas para os filhos dos profetas.
Então um deles saiu ao campo a apanhar ervas, e achou uma parra brava, e colheu dela enchendo a sua capa de colocíntidas; e veio, e as cortou na panela do caldo; porque não as conheciam.
Assim deram de comer para os homens. E sucedeu que, comendo eles daquele caldo, clamaram e disseram: Homem de Deus, há morte na panela. Não puderam comer.
Porém ele disse: Trazei farinha. E deitou-a na panela, e disse: Dai de comer ao povo. E já não havia mal nenhum na panela.”

A primeira coisa que eu percebo no texto é a revelação talvez de um principio espiritual. Revelação não no sentido de “descoberta”, pois não é um princípio novo nem desconhecido, mas no sentido de “afirmação”, ou seja, o texto reforça e encoraja o cristão a seguir um princípio básico ao atravessar suas dificuldades.

Vamos analisar o texto:

“E, voltando Eliseu a Gilgal, havia fome naquela terra, e os filhos dos profetas estavam assentados na sua presença”

Havia fome na terra. Fome aqui representa a tribulação. Havia dificuldade sobre a terra, sobre a vida das pessoas. Mas havia também esperança, pois havia a presença do homem de Deus, do profeta do Senhor.

“Os filhos dos profetas estavam na sua presença.”

Aqui se re-afirma o princípio: o melhor lugar para você estar, no tempo da tribulação, é na presença do Senhor. Aqui a presença do profeta representa a presença de Deus.

Em tempos de dificuldade, direcionamos nossas energias para todos os lados, na tentativa de solucionar nossos problemas. Talvez os filhos dos profetas pudessem estar correndo pra todos os lados, procurando comida, cavando cisternas, mas não, eles estavam assentados na presença do profeta porque sabiam que das mãos do senhor é que viria a salvação.

Mas o que mais chamou minha atenção foi o que aconteceu a seguir, e eu pretendo centralizar a mensagem desse post neste fato, vamos ver:

“e disse ao seu servo: Põe a panela grande ao lume, e faze um caldo de ervas para os filhos dos profetas. Então um deles saiu ao campo a apanhar ervas, e achou uma parra brava, e colheu dela enchendo a sua capa de colocíntidas; e veio, e as cortou na panela do caldo; porque não as conheciam.”

Muitas são as implicações por trás dessa situação, e eu fiquei muito impressionado com o que vi aqui.

Percebam primeiro que, pela linguagem utilizada fica claro que Eliseu não foi obedecido em sua solicitação, e aqui temos mais alguns princípios espirituais sendo afirmados.

Quando Eliseu ordena que se busquem os materiais para a sopa, ele ordena “ao seu servo”. Entretanto nós podemos perceber que quem foi buscar os ingredientes foi “um deles”.

Geazi era o servo de Eliseu, mas um dos outros seguidores de Eliseu, um dos filhos dos profetas foi buscar as ervas. Tomo aqui a liberdade de estipular que Geazi teve dificuldades de obedecer. Geazi não quis buscar ervas para uma sopa, e eu me pergunto: porque?

Um dos filhos dos profetas disse “deixa comigo”, e ao tentar realizar a missão que era de Geazi, ele trouxe ervas envenenadas. Em um primeiro momento houve pânico. Então Eliseu, calmamente realiza o milagre, e todos podem comer a sopa.

Isso traz alguns princípios à tona:

Quando você deixa de realizar a missão que foi dada por Deus, isso não impede que outra pessoa realize essa missão em seu lugar, pois a vontade de Deus, com ou sem você, sempre será realizada.

Os problemas ou situações decorrentes da realização de uma missão, não acontecem porque a missão foi realizada da forma errada, mas porque a missão que Deus te dá serve para te ensinar alguma coisa.

Talvez se Geazi tivesse ido ele teria sido atacado por um leão, talvez se outro filho dos profetas tivesse ido ele teria sido assaltado por ladrões, e em todas essas situações a mão de Deus teria agido com o objetivo de cumprir a ordem do profeta: fazer a sopa.

Então não podemos assumir que o problema da sopa envenenada aconteceu porque Geazi se recusou a obedecer, pois isso seria atribuir a Geazi, ou a qualquer um de nós, a capacidade de prejudicar os planos de Deus.

Os planos de Deus nunca serão prejudicados por ninguém. O que aconteceu simplesmente, foi que Geazi abriu mão de seu aprendizado. Em vez disso um dos filhos dos profetas, que se habilitou, teve o seu aprendizado.

Ele aprendeu, cresceu, evoluiu, se tornou uma pessoa melhor nesse processo.

Isso traz outro princípio à luz: quando você se recusa a realizar uma missão dada por Deus, a única obra que você está prejudicando é aquela que ocorre na sua vida.

E pra encerrar, eu vou brincar um pouco, inventando coisas sobre Geazi. Ele estava ficando um tanto quanto exigente. Ele já havia visto Eliseu realizar os mais incríveis milagres.

Isso fez com que Geazi se tornasse presunçoso, no sentido de “cheio de pretensões”. Ele tentou fazer uma “pressão” em Eliseu. Porque afinal de contas, ele tinha acabado de ver Eliseu fazer multiplicar o azeite. E há pouco tempo, nestes mesmos tempos de fome, ele viu Eliseu fazer aparecer um urso por causa de uma provocação de vários garotos.

Ora, pensou Geazi, sopa? Porque temos que tomar sopa se Eliseu poderia fazer aparecer um urso aqui para fazermos um churrasco, e ainda temperá-lo com azeite?

Geazi havia presenciado tantos milagres, que agora se sentia contrariado quando o milagre que acontecia não era o de sua preferência, e muitas vezes nós também agimos assim.

Geazi estava sendo iludido por uma falsa sensação de escolha. Nós também muitas vezes nos deixamos iludir por uma falsa sensação de escolha.

Mas isso porque às vezes nós estamos com o foco errado. Ao realizar a missão dada por Deus nós nos consideramos os autores da obra, em vez de sermos gratos pelo privilégio do aprendizado oriundo da realização.

Quando você achar que pode escolher entre a sopa ou o churrasco, não esqueça que na verdade você está escolhendo entre a sopa ou a fome.