Síndrome do Arrebatamento

Eu descobri que eu sofro de Síndrome do Arrebatamento.

Tantos anos na Igreja ouvindo “cuidaaado, a qualquer momento você pode ser deixado pra trás, cuidaaaadoo” (tente imaginar isso na voz do Cid Moreira), me geraram uma espécie de Fobia.

Por exemplo, quando alguém sai do recinto em que eu estou, mas eu não percebi ela saindo, e daí eu vou procurá-la e ela não está lá, pronto! Na mesma hora eu já penso “Meu Deus será que ele foi arrebatado?”

E aí eu já começo a fazer inúmeras comparações. Porque ela foi arrebatada e eu não? Porque Deus quis aquela pessoa e não me quis? Eu era tão ruim assim?

Um dia desses eu podia jurar que vi meu chefe na sala dele. Daí eu levantei pra ir falar com ele, e puft, o cara tinha sumido. É claro que eu pensei que ele foi arrebatado, é assim que funciona a Síndrome. Eu me apavorei. Deus escolheu meu chefe e me deixou pra trás?

Segundos depois o cara saiu do banheiro e eu respirei aliviado.

Jesus Spielberg

Ultimamente andei pensando sobre os grandes e fantásticos eventos narrados na Bíblia, que sempre foram usados para falar sobre o grande poder de Deus. Em relação a isso, há algum tempo venho me fazendo algumas perguntas, algumas delas difíceis de entender, e algumas difíceis até mesmo de formular.

Já faz algum tempo que eu abandonei a idéia de tentar usar medidas humanas para definir o quão grande Deus pode (ou deve) ser. Pra mim todas essas definições são inúteis.

Por exemplo, na frase “Deus é onisciente”, estou dizendo que Deus é tão poderoso que é capaz de saber todas as coisas. Porém, quando você investiga o que são “todas as coisas”, você fatalmente cai na seguinte definição: Deus sabe de tudo o que vai acontecer. Ou você pode cair em qualquer variação disso, como: Deus conhece o passado, o presente e o futuro.

Neste ponto eu me pergunto: faz sentido essa definição?

Essa pergunta é valida, porque ao dizer que Deus é poderoso porque conhece o passado, o presente e o futuro, estou tentando mensurar o poder divino usando uma referência de poder humano. O que para “mim” seria incrivelmente poderoso em termos de onisciência? Conhecer o passado, o presente e o futuro de todas as coisas.

Deus então é onisciente porque sabe tudo isso. Porém a grande verdade é que nem para nós humanos existe uma definição consensual sobre o que o tempo significa e como ele acontece, e portanto menor ainda é nossa compreensão do que Deus entende como sendo o tempo. Por exemplo, para Deus o tempo pode ser simplesmente um estado absoluto onde tudo acontece ao mesmo tempo, ou ainda tudo isso que nós chamamos de “existência” pode ser apenas um pensamento que ocorre na mente de Deus.

A mesma coisa nós fazemos com os incríveis eventos bíblicos. Veja o que Deus fez, abriu o mar vermelho! Derrubou as muralhas de Jericó! Multiplicou os pães! Estamos medindo Deus com critérios humanos.

E então neste momento eu começo a me perguntar: é preciso que todos esses grandes eventos sejam verdadeiros para que eu possa acreditar em Deus? Deus precisa ser “humanamente grande” para que seja divinamente Deus?

Quando eu estudo a vida de Jesus e os princípios e valores que ele deixou para os homens, e quando eu paro pra pensar com honestidade nesses princípios, e na existência de Deus enquanto representação viva desses princípios, eu já não tenho mais necessidade de que ele tenha realmente aberto o mar vermelho para acreditar nele.

Me pergunto se não usaram (e continuam usando) todos esses incríveis eventos para criar em mim o mesmo efeito que os efeitos especiais de hollywood criam quando assistimos um filme.

E a partir desse momento então – do momento em que me liberto dessa dependência dos milagres – ninguém mais me aprisiona pelo sensacionalismo. Eu apenas entendo e concordo com o amor, e gasto minhas energias tentando aprender mais sobre ele, porque ele sim faz sentido.

A Bíblia diz: Deus é amor. Jesus disse: Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei (ao ponto de dar minha própria vida). Mas o que eu acho curioso é que essas palavras não são suficientes. Eu preciso dos efeitos especiais.

Preciso?

 

Valores Cristãos?

Certa vez, ouvi de um evangélico a seguinte observação:

“Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.”

Essa é uma observação muito comum no meio religioso, quando um cristão/evangélico precisa justificar seus julgamentos sobre determinado assunto.

A frase que estou citando surgiu quando estávamos em uma conversa sobre homossexualidade. O argumento dessa pessoa veio com base nessa afirmação, onde ela buscou defender que Deus ama a todos, inclusive os homossexuais, mas não ama e nem pode compactuar com sua “conduta pecaminosa”.

Uma das coisas que me deixou mais curioso foi: Onde está esse versículo? Afinal, os cristãos/evangélicos se orgulham por ter suas atitudes baseadas “na palavra”. Infelizmente porém, esse versículo não existe e essa é apenas mais uma interpretação das escrituras que é amplamente utilizada pelos evangélicos sem questionamentos.

De qualquer maneira, existe algo nessa afirmação que chama minha atenção, quer o versículo exista ou não.

Observe cuidadosamente a situação e a frase.

“Eu não aceito a homossexualidade, porque a Bíblia diz que isso é errado. Eu não odeio o homossexual, eu não tenho raiva e nem preconceitos contra o homossexual. Eu apenas não compactuo com suas ações pecaminosas. Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.”

Quando você usa algo ou alguém para defender uma posição pessoal, você obrigatoriamente está pegando emprestado para si mesmo o mesmo status desse algo ou alguém. Você está se colocando em pé de igualdade.  No caso acima, a pessoa está obrigatoriamente se colocando no mesmo patamar de Deus. Assim como Deus, eu também amo o pecador, e odeio o pecado.

E qual o problema? Não posso querer agir como meu Pai? Se você for evangélico ou cristão provavelmente está se perguntando isso.

E é neste ponto em que eu começo a me perguntar muitas coisas.

Existe todo um enorme conjunto de atitudes divinas, que são consideradas difíceis demais para serem imitadas. Deus, por exemplo, amou a todos os seres humanos acima de qualquer coisa, ao ponto de entregar seu único filho. Isso é muito difícil de fazer.

Deus é justo, e age com absoluta e total imparcialidade em qualquer situação. Deus é paciente, amoroso, compreensivo. Deus não faz as coisas esperando algo em troca, ele se importa com a sua felicidade. Deus sempre estende a mão ao aflito, sempre estende a mão ao pecador e ao necessitado. Isso tudo é muito difícil, para não dizer quase impossível de fazer.

Porém, em compensação, algumas das atitudes de Deus são muito fáceis de imitar. Deus odeia o pecado, então eu também odeio o pecado. Não posso ver um pecador na minha frente. Fico admirado quando as pesssoas pecam. Comento esse assunto como todos os meus irmãos santos em Cristo.

Deus não se envolve com o pecado, então eu também não me assento na roda dos escarnecedores. Não me misturo com os lascivos, idólatras e beberrões. Deus odeia o pecado, eu também odeio o pecado. Deus ama quem dá com alegria, eu também amo quem dá com alegria, me impressiono quando descubro que certo irmão deu uma generosa quantia para a igreja, quanta santidade! Deus odeia a mentira, eu também odeio a mentira. Se Deus odeia as obras da carne, eu também odeio as obras da carne.

Mas isso só se for na segunda ou terceira pessoa.

Eu jamais considero meus atos como atos pecaminosos. Aquele CDs e DVDs piratas que estão abarrotando as minhas estantes, não me incomodam. Aquelas mentirinhas que eu contei ao telefone não me incomoda. Aquele dinheirinho que eu deixo na carteira caso o guarda de trânsito pare o meu carro também não. Aquela visitinha que eu fiz naquele site pornográfico foi apenas um pequeno deslize.

O fato de eu ficar fofocando sobre a vida de outras pessoas, fazendo julgamentos e sentenciando as pessoas, também não me incomoda. O que me incomoda é saber que meu irmão pecou.

É incrível como um cristão/evangélico, que se diz seguidor de um mestre que sofreu todos os tipos de injustiça por amor das pessoas, levanta bandeiras com o nome dele escrito, veste camisetas com o nome dele escrito, frequenta comunidades com o nome desse mestre gravado em legras garrafais nas paredes, na primeira oportunidade que tem, se revolta contra pessoas que cometeram pecados, e as julga e sentencia com a velocidade da luz.

Isso é claramente um sinal da hipocrisia que predomina nesse meio.

Um verdadeiro seguidor de um mestre que jamais condenou ninguém, não condenaria ninguém. Um seguidor daquele que sofreu injustiças e ficou calado, sofreria injustiças e ficaria calado. Um seguidor daquele que quando alguém pedia emprestado ele dava, faria o mesmo.

Um seguidor daquele que amou a todos, também amaria. Um seguidor daquele que andava com as pessoas que eram consideradas da pior espécie, porque sempre acreditava no potencial delas em se tornarem pessoas melhores, faria o mesmo.

Mas  hoje é motivo de escândalo no meio evangélico, alguém pecar.

Os irmãos e irmãs da igreja, ficam escandalizados, levam as mãos à boca e comentam pelos corredores. Hipócritas.

E seria bom se parasse por aí, mas não é só isso.

A santidade desses irmãos é tão prejudicada pelo pecado alheio, que eles não conseguem nem louvar ao Senhor, veja só. Eles não suportam essa situação de pecado, e saem da igreja, procurando um lugar onde a santidade deles não seja tão atingida. Quanta santidade! Quanta unção! Quando poder do Espírito!

O pecado alheio incomoda tanto esses irmãos santificados, que para eles se torna até difícil buscar ao Senhor, num meio tão corrompido. Hipócritas.

Enquanto isso, as pessoas continuam precisando de ajuda, precisando ouvir uma palavra amiga, precisando de apoio em suas vidas. Precisando de alguém que lhes diga que tudo vai dar certo. Precisando de uma atitude pequena, mas que seja positiva.

Mas o cristão de hoje em dia está preocupado demais em manter sua estrutura religiosa funcionando, e não tem tempo de se preocupar com as pessoas e com o que elas estão sentindo. O meio evangélico é um meio que vive e sobrevive de aparências, se alimenta de status e reputação, e é tão vazio quanto a casca de um besouro.

Um meio onde as pessoas escondem seus pecados evidenciando os pecados dos outros.

Mas não podemos condenar as pessoas por agirem assim. Em primeiro lugar, porque não podemos condenar ninguém a nada. Em segundo lugar, porque não podemos ensinar durante décadas toda uma geração uma série de conceitos e valores errados, para depois criticar as pessoas que agora aprenderam e praticam esses valores.

Está na hora de pastores e líderes começarem a ensinar os valores corretos.

 

Hipocrisia: A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, idéias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. (Fonte: Wikipédia).