Vila Esperança – O Funeral

Nabuco ficou arrasado.

Ele vivia reclamando do Padre, sempre dizendo que ele era um puritano e um dia ia perceber que a vida não era bem assim. “Assim como?” Alguém perguntava. “Assim, oras”, ele respondia.

O velho e rabugento Nabucão ficou muito triste com a notícia no dia seguinte. “Mas como? Morreu de que?”, perguntava indignado. “Ele já era bem velhinho, Nabuco”, respondeu Padre Nicolas.

Padre Nicolas no início foi visto com um certo receio pela maioria das pessoas da vila. Quando Padre Antônio percebeu que sua idade começava a ficar avançada, foi visitar a Vila de São Paulo, e voltou de lá com Padre Nicolas a tiracolo. Nesse dia, a maioria das pessoas, inclusive Seu Nabucão, olhou para ele com uma cara meio estranha, como que se perguntassem: “Quem é ele?”.

A única vez em que comentou sobre o assunto, Padre Nicolas disse apenas “é muito difícil chegar para substituir uma pessoa que é muito amada. Não espero ser tão amado e respeitado quanto o padre Antônio, só espero poder servir tão bem quanto ele serviu”.

Dez anos haviam passado e apesar dos receios, Padre Nicolas já havia mostrado com muito trabalho quem realmente era. Ele passava os dias e as noites dentro do Mosteiro. Cuidava da enfermaria e dos doentes que paravam ali, tratava dos jardins, mantinha tudo em ordem para os cultos na capela, deixava os quartos constantemente arrumados.

Todas essas atividades o Padre Antonio realizava antes, mas hoje não tinha mais condições. Algumas pessoas da vila ajudavam a manter o mosteiro em ordem, mas Padre Antônio queria deixar alguém ali, de ordem religiosa, como se soubesse que seus dias estavam chegando ao fim.  A partir de agora, padre Nicolas seria o responsável por manter os cultos religiosos na Vila Esperança.

O velório foi uma coisa muito triste.

A maioria das pessoas da vila estava presente, e a maioria dos presentes estava chorando. Estranhamente, o Nabuco não compareceu. “Não gosto de funeral”, disse ele.

Dona Joana, que tinha uma quitanda onde vendia frutas e verduras e que semanalmente pedia orações e rezas ao Padre Antônio contra todo tipo de males, estava lá em prantos. “Cade o Nabuco?”, ela perguntava. “Como é possível ele não ter vindo, que desrespeito!”.

Tudo pronto para o sepultamento. Padre Nicolas se posiciona ao lado do caixão onde o corpo de Padre Antônio aguardava. Ele abre sua Bíblia, e começa a falar:

“- Meus queridos irmãos e irmãs aqui presentes, eu os saúdo com Paz e Graça, da parte de Deus Nosso Pai e do Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Estamos aqui reunidos, não por motivo de alegria, mas por motivo de tristeza. E não é nenhuma fraqueza de nossa parte, aceitar o fato de que estamos tristes. Não somos menos cristãos, por aceitarmos que estamos tristes.

– Não temos menos Fé, por aceitarmos nossas fraquezas. Antes, Deus que nos ama, já conhece nossa fraqueza e já nos enviou seu Espírito Santo para nos ajudar neste dia tão triste.

– Estamos aqui para sepultar nosso querido irmão, Padre Antônio. A grande maioria dos aqui presentes, já o conhecia há muito mais tempo do que eu. Porém, por ocorrência do nosso sacerdócio, tive o privilégio de conviver com Padre Antônio talvez por mais tempo do que todos vocês aqui presentes.

– Posso então, dizer com segurança, que minha fraqueza hoje é tão forte quanto a de vocês.

– Padre Antônio não era uma pessoa que qualquer um precisasse aprender a admirar e respeitar. Ele exalava admiração e respeito. Seu olhar calmo, sua forma singela de ouvir e tratar todos os tipos de situação, sua bondade e presença de espírito se faziam notar a qualquer um que conversasse com ele pela primeira vez.

– Hoje eu choro e me entristeço, pois sinto a dor da perda, terrível como a sensação de falta de ar. Esse sentimento indescritível, que toma conta de nosso corpo nos fazendo pensar que nosso próprio sangue está faltando em nossas veias, e como se duas mãos fortes apertassem nosso coração tentando impedi-lo de bater.

– O que poderia ser dito, em uma situação como essa? Uma situação em que todas as palavras do mundo não fariam a menor diferença, pois nenhuma palavra do mundo o traria de volta para nosso convívio.

– Contudo, não consigo ficar calado. Preciso falar, nem que seja para desabafar. Preciso falar, nem que seja para tornar pública e notória a grande admiração que eu tenho por este homem. Peço a Deus todos os dias, que me dê metade da unção que havia sobre ele, e ainda assim eu poderia fazer uma montanha se mover.

– Padre Antonio foi autor de muitos milagres. Era nítida a transformação pela qual as pessoas passavam após alguns poucos contatos com ele. Esse é o tipo de milagre que tornaria pequeno trazer os mortos de volta para o mundo dos vivos. Padre Antônio possuía uma habilidade quase divina, de fazer com que as pessoas se encontrassem consigo mesmas. As pessoas ficavam felizes, e voltava o brilho em seu olhar. A tristeza cessava, a confiança retornava.

– Meus queridos, todos os dias que já passaram sobre a Terra e os que ainda vão passar, seriam necessários para falar das virtudes e da beleza interior de Padre Antônio, e talvez ainda não fossem suficientes.

– Hoje, quero deixar uma palavra com vocês, das sagradas escrituras, no livro dos Salmos, capítulo 116, verso 15.

Salmos 116:25 – Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus Santos

– Durante muitos anos eu me vi em conflito com essa afirmação. Como poderia ser isso uma verdade? Como poderia Deus, nosso Senhor, que tanto deseja nosso bem e tanto nos ama, considerar bela, e ainda mais, considerar preciosa a seus olhos a morte de um de seus filhos?

– Todos aqueles aqui presentes que perderam um filho sabem a dor terrível que isso representa. E aqueles aqui que possuem filhos sabem a dor que é sequer imaginar que isso aconteça.

– Seria o Senhor um tirano, insano a ponto de se regozijar com algo tão doloroso? Seria Deus um tresloucado que está se divertindo ao inverter as próprias leis de amor e sobrevivência que concebeu para a raça humana?

– Ontem à noite, meditando profundamente sobre como seriam as coisas daqui para frente sem Padre Antônio, eu me peguei pensando que pelo menos agora ele estaria descansando. Pelo menos agora, Padre Antônio está em paz, finalmente ele está sentindo alívio.

– Porque temos a certeza tão grande de que nosso alívio está no além da vida? Porque temos essa certeza cega se não há uma forma de provar que os problemas que temos nesta vida, não serão herdados à próxima? De onde vem esse sentimento?

– Foi quando, de repente, como se uma pomba branca da paz houvesse deixado uma mensagem enviada por Deus em minha mesa com as respostas, eu compreendi. A própria fundamentação e a essência do ser humano estão em sua relação com Deus.

– Até mesmo o mais ímpio dos homens, aquele que deliberadamente profere as mais terríveis blasfêmias pelo prazer de profanar sua voz e seu corpo, em seus momentos mais sombrios de angústia, com as duas mãos na cabeça clama: “meu Deus!”.

– Porque isso é assim?

– Quando Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, significa que Deus, ao criar o homem, colocou nele parte de sua natureza. Não poderia ser diferente. O homem, em todas as suas obras, imprime nela suas próprias características, e até mesmo isso veio por herança de Deus. Com Deus não foi diferente, e em sua principal obra, o Homem, ele imprimiu parte de suas características.

– E se Deus é infinito em sua grandeza e majestade, procure considerar por um momento a magnitude de seus sentimentos.

– Se um pai humano sente um amor imenso por seu filho, imagine a imensidão do amor de Deus por seus filhos. Se um pai sente no coração a dor terrível da separação, ao deixar seus filhos para ir trabalhar, mesmo sabendo que ao final do dia irá encontrá-los novamente, considere a imensa ansiedade com que Deus nos aguarda durante este nosso breve passeio por esta Terra.

– Agora pense em uma criança perdida pela floresta, apavorada e enxergando perigos em todas as sombras, quando de repente a figura que vê em sua frente é seu pai que está à sua procura. Sinta o alívio, a recompensa, a mistura de sentimentos de alegria, paz, felicidade e vitória.

– Com isso meus queridos é desvendado o mistério da preciosidade que é aos olhos de Deus a morte de seus santos. Para nós que ficamos por aqui nos resta a dor da separação, mas para Deus, é a alegria do re-encontro. E para aquele que se vai, é o alívio de ser pego no colo por seu pai, depois de ter enfrentado os perigos da vida.

– Vamos confortar nosso coração, com a certeza de que nosso querido irmão agora está descansando, mas é nosso dever continuar sua obra e seu trabalho, e sei que ele ficaria muito feliz, ao saber que nós, apesar de chorarmos sua morte, continuaremos seguindo em frente com alegria.”

Dizendo essas palavras, Padre Nicolas fez uma oração, e mandou prosseguir o sepultamento. Um pouco mais reconfortados, os presentes aguardaram em silêncio, fizeram suas orações e jogaram suas flores.

Aos poucos, um por um, as pessoas foram indo embora. O outono estava no fim, e com ele foi Padre Antonio. Deixava um fiel discípulo, e uma vila cheia de esperança.

 

O Mosteiro da Vila Esperança

Era uma noite fria e escura e as estrelas quase não apareciam no céu.

Ao longe, a única luz que era possível enxergar era a da lanterna da torre do mosteiro do Padre Antonio. Assim terminava o outono na Vila Esperança, um lugar comum no meio do nada.

Em meio à quietude da noite fria, um choro se ouviu no mosteiro.

Distante muitos dias e muitas noites de viagem da cidade mais próxima, a Vila Esperança recebeu esse nome de um velho Português, que um dia resolveu se estabelecer ali no meio do mato.

Cansado de tentar aventuras na corte portuguesa, e ainda mais cansado de desbravar as matas brasileiras, decidiu ficar por ali com todos os seus bens e criados, próximo da primeira nascente que encontrou em meio a Serra do Mar. Depois de muito tempo, o velho Português começou a ser carinhosamente apelidado de Portuga.

A Vila Esperança, pelo seu porte, mais parecia uma aldeia. Umas poucas casas aqui e ali, um casarão com muitos quartos próximo à nascente, e ao lado dele o velho mosteiro. A vila tinha por volta de uns 90 habitantes, talvez um pouco mais. A verdade era que ninguém se incomodava de contar.

Sem nenhuma atividade agrícola ou rural, e sem a menor atividade econômica, Vila Esperança servia apenas como moradia para seus habitantes, que cuidavam cada um de suas próprias vidas, e como um ponto de descanso para aqueles que se aventuravam pela Mata Atlântica.

Para esses aventureiros insólitos, o único lugar onde poderiam descansar um pouco era uma casa conhecida localmente como casarão. O dono do casarão alugava um de seus quartos, sempre a troco de quase nada em dinheiro, ou algum objeto de valor.

Nabuco José Joaquim da Silva. Até hoje ninguém sabe se é verdade, mas era assim que Nabucão, como as pessoas da vila o chamavam, soletrava seu nome completo nos dias de verão, quando ficava sentado à frente do casarão tomando a água que o passarinho não bebe, e que ele mesmo fabricava.

Inventava de servir aos seus visitantes – quem quer que fosse – uma comida muito gordurenta que segundo ele era muito usada pelos Bandeirantes nas incursões pelas matas e que segundo ele, sustentava um homem “por muitos meses”. Ele sempre afirmava que ele mesmo a comia e servia para suas duas filhas. Ao que parece, pelo tamanho das duas, era verdade.

O Mosteiro era administrado pelo Padre Antônio, e era a única coisa que funcionava de forma organizada na vila. Padre Antônio foi morar em Vila Esperança a pedido do Portuga, em uma de suas viagens à Vila São de Paulo.

Segundo o Portuga, toda vila precisava ter um padre e um mosteiro. Na época em que recebeu o convite do Portuga, Padre Antônio trabalhava na missão dos padres fundadores do colégio jesuíta da Vila de São Paulo, em um trabalho missionário para catequizar os Índios.

Aparentemente comovido com a solicitação do Portuga, Padre Antônio intercedeu junto ao padre responsável pela missão, e recebeu autorização para partir com o Portuga, levando consigo a missão de construir um colégio e evangelizar as pessoas.

O Portuga era um homem muito fiel a Cristo e a seus ensinamentos. Tratava muito bem seus servos, como se fossem membros da família, e todos lhe eram muito gratos por isso.

Enquanto a maioria dos “Paulistas” estavam em uma intensa corrida em direção às matas na luta por conquistar e escravizar os Índios para mão de obra, o Portuga sempre dizia: “a Bíblia diz, o que o homem semear, isso também ceifará”.

Ele dizia isso com a fé de que as pessoas da Vila Esperança não iriam cair no erro de se deixar levar pela ganância. Após sua morte, o Portuga deixou para o Padre Antônio o desejo de que ele tomasse conta das pessoas e da vila, enquanto ela existisse.

Padre Antônio era uma figura muito amável e carinhosa. Sempre com um sorriso nos lábios, e um olhar amistoso, era um velhinho que amansava as pessoas apenas com o seu olhar. Todos na vila o amavam e o respeitavam, não apenas por seu jeito doce, mas também por seu constante cuidado, e por sempre se preocupar com o bem estar das pessoas acima de tudo.

Muitos anos se passaram, e Padre Antônio já estava com uma idade avançada,  e as pessoas da Vila começavam a ficar preocupados com sua saúde. Um dia, em meio à quietude da noite fria de um final de outono, um choro se ouviu no mosteiro, e ele deu seu último suspiro.