O Direito de Escolha

Acho que vamos concordar (e talvez só nisso) que estamos vivendo nestes últimos anos um aumento nas discussões e nos debates em torno da questão sexual. Existe todo tipo de opinião. Política, religiosa, social, etc.

Em meio a toda essa discussão — e eu quero evitar a discussão em si — muitos são os argumentos que todos apresentam.

Quero evitar a discussão em si porque neste artigo pretendo me debruçar sobre uma questão filosófica, o que é um pouco difícil quando se trata desse tema. Imediatamente ao abordar a questão sexual já surge o debate do “certo/errado”, “concordo/não concordo”. Evite isso a todo custo ou pode perder uma importante oportunidade de reconsiderar alguns conceitos.

A qual questão me refiro? A do direito de escolha. Quero investigar a relação entre orientação sexual “nativa”, se é que posso chamar assim, da orientação sexual por opção, se é que ela existe. Lembre-se de que estamos no plano das idéias.

Vou demonstrar que discutir o direito de opção leva aos seguintes desdobramentos: a) justificar o respeito ao homossexual com base no fato de que sua orientação sexual é nativa pode levar ao reforço da idéia de que ser homossexual é uma transgressão, e b) Talvez seja necessário rever o papel da luta pelo Respeito na questão da orientação sexual.

Ao longo do artigo também tento repensar alguns temas, como o argumento da “incompatibilidade biológica”, e o comportamento dos religiosos, principalmente cristãos, nesse tema.

Mas vamos primeiro contextualizar um pouco. As pessoas que defendem a causa LGBTQ+ — e eu sou uma delas — têm os seus argumentos. 

Uma das primeiras coisas que penso é: em um cenário ideal, o debate nem deveria existir. Já entenderíamos que somos todos iguais. Mas esse borbulhar de opiniões e discussões que acontecem de uma certa forma me tranquilizam de que estamos caminhando em direção a esse cenário.

Esse argumento é fácil pra mim, que não sofro com isso. Na verdade sofro um pouco indiretamente, na forma de retaliações religiosas e sociais por apoiar a luta contra o preconceito. Mas quem sofre diretamente precisa de medidas urgentes e imediatas e não tem tempo nem paciência pra aguardar a sociedade avançar a passos de formiga.

Eu quero me debruçar hoje sobre um argumento específico. Eu já o usei bastante e vejo muitos defensores e apoiadores da causa LGBTQ+ e da luta contra o preconceito usarem: o argumento acerca da essência do indivíduo. 

O argumento acerca da essência diz que um homossexual é homossexual, ele não decidiu ser homossexual. Ele nasceu assim. Ninguém optaria por isso, ainda mais vendo e sabendo o que sofrem os homossexuais.

Portanto não é uma opção, é uma orientação. Antigamente se dizia “condição”, mas este termo foi descontinuado, por ter implicações negativas, como se fosse uma doença ou deficiência.

Pois bem. Quando eu concluo que ninguém decide ser homossexual, eu estou concluindo que ninguém opta por isso. E quando eu uso isso como argumento, na luta contra o preconceito, eu acabo criando uma ligação lógica com a questão da aceitação e do respeito, ou seja, eu preciso respeitar e aceitar pois essa pessoa é assim (essência). Ela não decidiu ser assim.

Esse argumento fazia todo sentido pra mim, mas a partir de algum momento eu comecei a ter dúvidas: quando eu estabeleço o argumento de que eu preciso aceitar a orientação sexual de uma pessoa porque ela nasceu assim, será que eu estou abrindo margem para concluir que, se fosse o contrário, se ela tivesse escolhido isso, eu não precisaria respeitar? 

Será que eu simplesmente não tenho a obrigação moral de respeitar a sexualidade do outro, e ponto?

Se a questão fundamental é o respeito, não deveria haver respeito por tudo, inclusive pelo direito de escolha?

Isso leva a ainda mais perguntas. Por exemplo: é mais fácil pra mim “aceitar” uma situação somente quando a pessoa envolvida na situação em questão não teve escolha? Fazer isso não é o mesmo que considerar a tal situação uma “transgressão”?

Explico.

Imagine uma pessoa que precisa decidir entre matar um ladrão que invadiu sua casa e permitir que ele machuque seus filhos. Há uma opção. Existe uma escolha a ser feita. Mas todos nós sabemos que se a pessoa decidir matar o ladrão ela será perdoada. Este é um cenário onde, mesmo havendo uma escolha, nós sabemos qual é a escolha óbvia.

Porém matar é uma transgressão. Mas naquele caso “não havia escolha” e eu consigo aceitar isso muito facilmente. Portanto a pessoa não tem culpa dessa transgressão. Não faz sentido punir essa pessoa, pois ela não tinha escolha de fato, era a vida do ladrão ou a de seus filhos. Ela não decidiu simplesmente assassinar alguém.

Quando eu estabeleço o mesmo raciocínio para a questão sexual e digo que “não houve uma escolha”, a pessoa nasceu assim, não estou no fundo dizendo que tal pessoa “não tem culpa de sua transgressão”?

Como eu disse no início, ao justificar o respeito ao homossexual com base no argumento de que sua orientação sexual é nativa não levo ao reforço do conceito de que ser homossexual é uma transgressão?

É como dizer: ele não tem culpa de ser assim. Isso soa estranho para você, como soa para mim? Não é um pensamento que esteja necessariamente errado. Afinal, de fato, ninguém tem culpa de ser como é. Mas me incomoda a diferença do “peso” e da “medida”. Eu não preciso dizer que não tenho culpa de ser hétero.

Agora vamos fazer o pensamento inverso.

Imagine uma situação onde não há absolutamente nenhuma transgressão. Por exemplo, uma pessoa que está fazendo aniversário. Faz sentido você dizer: essa pessoa está de aniversário porque ela nasceu hoje, ela não teve escolha.

De fato essa pessoa não teve escolha. Ela nasceu hoje e por isso é seu aniversário. Fazer aniversário não é uma transgressão, então você não vê ninguém por aí dizendo: aceite, respeite.

Agora imagine que essa mesma pessoa não gosta do dia em que nasceu e resolve tentar na justiça uma mudança em sua certidão de nascimento. Imagine que ela consegue. O que você diria? Alguns até poderiam dizer: credo, nada a ver. Mas a maioria dirá: o dia que ela quer fazer aniversário não me interessa.

Portanto, pelo fato do aniversário não ser considerado uma transgressão, eu consigo aceitar isso seja em um cenário onde a pessoa não teve escolha e comemora no dia em que nasceu, seja em um cenário mais extremo onde alguém resolve mudar sua certidão. Não há um esforço para aceitar isso. Podemos até discutir se há de fato um “respeito em andamento”, ou se não é apenas uma situação corriqueira que passa despercebida.

Se alguém tenta me convencer a respeitar um aniversário, soará estranho. Porque alguém precisa me convencer disso? O que há de errado? Por isso, quando alguém usa esse argumento na questão sexual, não está na verdade reforçando que há uma transgressão?

E porque eu não acho estranho, como no caso do aniversário, que alguém tente me convencer (ou aos outros) a aceitar? Porque eu tenho em mim o conceito de que há uma transgressão.

Neste caso, minha luta não deveria ser contra isso?

Ou seja, minha luta não pode ser a de elaborar um argumento de “não opção” e tentar usá-lo para justificar a aceitação, mas sim em estabelecer que, tendo havido ou não uma escolha, não existe transgressão.

Afinal de contas, é uma transgressão alguém amar uma pessoa do mesmo sexo?

É de fato válido o argumento de que homossexuais “são errados” porque não podem procriar?

Se o que está em questão é o amor entre duas pessoas, faz sentido usar a impossibilidade biológica de procriação como um argumento contra? Afinal, existem muitas formas de estabelecer uma família. 

Se a impossibilidade biológica de procriar é um argumento válido contra o relacionamento, por que ele não é usado para casais heterossexuais que também não podem procriar? Porque são heterossexuais? Essa resposta não invalidaria todo o argumento?

Algumas pessoas dizem que homossexuais são promíscuos, mas não sabem definir exatamente a que se referem, a não ser citando os casos em que homossexuais se relacionam apenas buscando sexo, ou partindo para casos extremos. Quando você parte para um caso extremo, você está declarando falida sua participação em uma discussão. Você precisa aprender a ter argumentos válidos e concretos.

Novamente fica a mesma pergunta: Estabelecer que homossexuais são promíscuos usando casos em que existem homossexuais que buscam apenas sexo, é válido? A qualquer dia em que você for a uma “balada” na capital paulistana (ou qualquer outra cidade evidentemente), verá dezenas de casais em busca de sexo.

Por que então a casa onde ocorrem os encontros LGBTQ+ são consideradas “antros de perdição”?

E nos casos onde heterossexuais buscam relacionamentos de puro sexo, sem a menor possibilidade de decidirem procriar. Não vale o argumento da procriação? Ou seja, mesmo não querendo e não procriando, milhões de heterossexuais que se relacionam buscando apenas sexo não estão transgredindo.

Um casal homossexual que deseja constituir família e tenta usar os mecanismos que hoje estão à disposição para isso, entre eles a adoção por exemplo, está transgredindo? É mais fácil para mim aceitar um casal homossexual “não promíscuo”?

Se a resposta para essa pergunta for “sim”, meu problema então é com a homossexualidade, ou com a promiscuidade? Se a resposta for “promiscuidade”, porque não há retaliação social e religiosa para propagandas de shows onde aparece um casal de namorados se relacionando, mas se nesta propagando houver dois homens se beijando haverá uma revolta?

Homossexuais que fazem as mesmas coisas que os heterossexuais quando buscam sexo por diversão, estão transgredindo, não por fazerem sexo sem compromisso, mas sim por serem homossexuais fazendo sexo sem compromisso.

Essas questões todas são mais difíceis para os religiosos, porque para eles é pecado e pronto. Religiosos têm muita dificuldade de sair do papel de Deus, ainda mais nesta questão.

Explico.

Quando você pergunta a um cristão se ele aceita um relacionamento homossexual, ele vai dizer que não. Porque a Bíblia diz que é pecado, simples assim.

Mas quando você tenta dialogar, tratando das questões do amor e respeito, o cristão diz que ama o homossexual. E faz isso num tom condescendente. Seu principal argumento é: Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.

Aí é que mora o perigo. O cristão não é Deus. Portanto se há sobre qualquer pessoa o papel de odiar o pecado, esta pessoa é Deus.

Se há alguém em condições de decidir o destino de alguém baseado em sua conduta, esse alguém é Deus. E não precisamos entrar na seara se ele irá ou não condenar ao inferno. O fato apenas é que este papel é dele.

Portanto toda vez que o cristão usa o argumento de que ama o homossexual mas odeia sua prática, alegoricamente falando ele está cometendo o mesmo erro de Lúcifer: querendo se assentar no trono de Deus.

Ao passo que Jesus, sendo Deus, desceu de seu trono e viveu entre os homens ensinando e praticando amor e aceitação. Curiosamente este mesmo Jesus era acusado pelos religiosos da época de se envolver com pecadores.

Portanto neste quesito não há diálogo com religiosos. A eles eu diria apenas: Jonas 4:4.

Mas se você está disposto a refletir precisa pensar nisso: é errado o direito de escolha por ser homossexual? Mais uma vez: não está em discussão se alguém faria ou não essa escolha.

Faz sentido usar a “essência” como argumento a favor? O argumento principal não deveria ser o de que não há transgressão? E mais: tenho o direito de não respeitar?

Aqui vamos para um segundo ponto, porque a própria questão do respeito me gera algumas dúvidas. 

Vou explicar.

Imagine uma situação em que você diz: eu respeito sua opinião, mas a minha opinião é outra.

Quando algo está a mercê deste tipo de pensamento, se estabelece que há margem para considerar algo errado ou impróprio ainda que não seja um “pecado capital”.

Por exemplo: divergências políticas. Eu tenho a minha, mas respeito a sua. Eu posso ser um defensor do capitalismo e encontrar mil erros e problemas no socialismo, ou vice-versa. Mas sendo capitalista, respeito o fato de você ser socialista. Isso é a chamada democracia, liberdade, direito a opinião, ao pensamento.

Agora uma pergunta: seja por opção ou não, a orientação sexual de uma pessoa deveria estar à mercê de uma análise assim? Não existem valores que deveriam estar acima dessa discussão?

Vou exemplificar. Imagine que uma pessoa está viva. Eu viro pra ela e digo: você está viva e eu respeito isso, mas não concordo. Obviamente esse pensamento não faz sentido. Estar vivo não é uma questão sujeita à discussão ou à mercê do respeito de quem quer que seja. 

Isso me diz que existem valores e princípios que transcendem a certas discussões. Será que a orientação sexual não seria uma delas? Qual é, afinal, a grande importância em relação à orientação sexual do próximo (por opção ou não), que me leva a considerar este um assunto tão prioritário?

Porque esse fato — alguém ser homossexual — não tem a mesma importância de um aniversário, ou seja: nenhuma?

Aqui há mais um ponto curioso. De uma maneira geral, a sociedade mesmo não religiosa não parece “aceitar” esse assunto. De onde isso vem? Seria um reflexo da nossa “educação social cristã”?

Fiz muitas perguntas aqui, que precisam ser pensadas e debatidas. Mas não é possível fazer isso com a mente fechada, ou com “ouvido pronto”. E coloquei dois argumentos que fazem mais sentido pra mim hoje.

O primeiro é que não importa se uma pessoa de fato decide ou não ser homossexual. No fundo existe todo tipo de situação, alguns nascem, alguns optam, alguns são curiosos. Seja o que for, não encontro espaço para considerar a orientação ou experiência sexual de uma pessoa como uma transgressão, portanto não encontro a necessidade de exigir respeito com base no argumento da essência.

O segunda: a luta deve ser em um âmbito ainda mais elevado. Há que se exigir respeito, mas precisamos escalar o nível da luta. A orientação ou experiência sexual de uma pessoa não está sujeita ao meu respeito, ou ao seu. É uma manifestação superior da alma, particular (sendo ou não privada), e individual. Você não está em posição de julgar isso.

Faço aqui uma consideração final.

Escuto muito os seguintes termos: “agora os gays querem tudo”, “agora querem sair por aí se beijando na rua”, “a rua x, ou a rua y, ou o shopping tal, virou uma promiscuidade”, “não vejo um casal hétero se comendo no meio da rua”.

Se você concorda com essas colocações, você precisa seriamente parar e pensar mais a respeito de toda essa questão, e rever praticamente todos os seus conceitos.

Eu concordo que em algumas situações, a manifestação pública de afeto entre homossexuais se mostra mais escandalosa do que a dos heterossexuais. Respondo com uma ilustração: como você iria se comportar, ao ganhar liberdade após anos de escravidão? Não faria festa pelas ruas?

Acho normal isso acontecer, e após muita reflexão já não me ofende. E acho ainda que esses extremos de manifestação devem diminuir, à medida em que o homossexual, a classe LGBTQ+ for alcançando o que acredito ser o seu maior anseio: e de passar despercebido como apenas mais um cidadão.

Pense!

Brasil 2016 – Crise Econômica e Política

Para alguns que podem não estar compreendendo a crise econômica que o Brasil está vivendo, ou interpretando os fatos como apenas um movimento político, fiz um pequeno levantamento para que possa ficar claro que a questão, apesar de ter fortes variáveis e condicionantes políticos, além de muitas questões e influências externas dos setores público e privado e ainda de situações internacionais, é muito preocupante e precisa de atenção de todos nós cidadãos.

Não apresento com este post uma posição política ou opinião em relação ao impeachment, apenas uma visão dos fatos sobre o orçamento público, para nos alimentar com dados e números e aumentar a qualidade da nossa discussão.

Vamos começar entendendo um pouco melhor os termos.

  • Meta de Superavit: Significa a previsão de quanto dinheiro será economizado.
  • Superavit: Ao final do ano, saldo positivo depois de pagar todas as contas.
  • Déficit: Saldo Negativo.

Portanto, a Meta é a minha previsão de quanto eu pretendo economizar. O Superavit é quanto eu efetivamente economizei, e o Déficit é o saldo devedor, caso os gastos tenham sido superiores.

Exercício de 2014 (Ano de Eleições)

  • Em Fevereiro/2014 foi informada Meta (previsão) de Superavit de R$ 99.000.000.000,00.
  • Em Novembro/2014 foi informada Meta (previsão) de Superavit de R$ 10.000.000.000,00
  • Em Janeiro/2015 foi informado resultado, Déficit de R$ 32.000.000.000,00
  • Resultado do Ano de 2014 = Déficit -32 Bilhões.

Exercício de 2015

  • Em Novembro/2014, foi informada Meta de Superavit de 1,2% do PIB R$ 66.000.000.000,00.
  • Em Dezembro/2014 foi informada nova Meta de Superavit de R$ 55.000.000.000,00
  • Em Janeiro/2015 foi informado Meta de Superavit de R$ 55.200.000.000,00
  • Em Julho/2015 foi informado nova Meta de Superavit de R$ 8.000.000.000,00
  • Outubro/2015 é informado Deficit de R$ 53.000.000.000,00
  • Janeiro/2016 é oficializado Déficit de 116.000.000.000,00
  • Resultado do Ano de 2015 = Déficit -116 Bilhões

 

Histórico

Em sublinhado, os anos de eleições.

  • DILMA – Déficit ao final de 2015 R$ -116 Bilhões
  • DILMA – Déficit ao final de 2014 R$ -32 Bilhões
  • DILMA – Superavit ao final de 2013 R$ 91 Bilhões
  • DILMA – Superavit ao final de 2012 R$ 105 Bilhões
  • DILMA – Superavit ao final de 2011 R$ 128 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2010 R$ 101 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2009 R$ 64 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2008 R$ 118 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2007 R$ 101 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2006 R$ 90 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2005R$ 93 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2004 R$ 50 Bilhões
  • LULA – Superavit ao final de 2003 R$ 81 Bilhões
  • FHC – Superavit ao final de 2002 R$ 52 Bilhões
  • FHC – Superavit ao final de 2001 R$ 21 Bilhões
  • FHC – Superavit ao final de 2000 R$ 38 Bilhões
  • FHC – Superavit ao final de 1999 R$ 870 milhões
  • FHC – Superavit ao final de 1998 R$ 10 Milhões
  • FHC – Déficit ao final de 1997 R$ -900 Milhões
  • FHC – Déficit ao final de 1996 R$ -77 Milhões
  • FHC – Superavit ao final de 1995 R$ 190 Milhões

 

Fontes Pesquisadas

 

 

A Droga do Sucesso

Cheguei a conclusão que odeio o sucesso. Pessoas bem-sucedidas são chatas. Possuem o sorriso bem-sucedido de pessoas que são felizes com a vida que tem.

Pessoas bem-sucedidas riem todas ao mesmo tempo bem alto, de piadas que não fizeram o menor sentido.

O bem-sucedido precisa soltar uma piada bem engraçada, pra todos acharem ele uma pessoa muito legal. Então ele estufa o peito, solta um sorriso campeão e manda aquela piadinha manjada.

Pessoas bem-sucedidas são barulhentas. Porque? Bem, porque elas podem. Elas chegam fazendo barulho e incomodando todos os que estão no recinto tentando trabalhar, porque o sucesso delas permite que elas incomodem os outros.

Pessoas bem-sucedidas precisam ter o cumprimento – o ato de cumprimentar – firme e sincero, exalando profissionalismo no olhar.

Pessoas bem-sucedidas não têm tempo a perder com futilidades. Jogos? Apenas aqueles que são indispensáveis para que ele se mantenha por dentro das novidades.

Elas andam por cima, na crista da onda, perseguem os empregos do momento e sabem tudo sobre o que é indispensável saber no momento, para ser bem-sucedido.

No momento é “cool” ser nerd? Vamos todos comprar nossa canequinha do super homem, naquela lojinha geek desconhecida até ontem, e deixá-la pegando poeira em cima da mesa.

Pessoas bem-sucedidas andam com uma expressão ocupada na rua, em seus figurinos monocromáticos e sapatos e bolsas caríssimos feitos de couro legítimo de ratos nobres costurados por escravos na Indonésia.

Discutem sobre os últimos lançamentos de tudo: eletrônicos, carros, roupas, tecnologias, e tudo o mais. Consideram as coisas que surgiram primeiro como as ultimas, e as que saíram por ultimo as primeiras.

Pessoas bem-sucedidas sabem mais. Sabem tudo. Não porque elas se dedicaram ao estudo de tudo, mas porque elas devoram a overdose de verborragia que vaza pelo esgoto das redes sociais diariamente, e andam com o dedo no gatilho do Dr. Google.

Pessoas bem-sucedidas não desviam de você na rua. Não porque elas sejam grosseiras ou mal-educadas. Na verdade elas são incrivelmente mais educadas do que você, elas sabem tudo sobre isso. Mas é porque elas não viram você.

Elas não conseguem enxergar as pessoas fracassadas na rua, a não ser que seja para fazer uma observação analítica sobre o fracasso delas. Por isso se você visualizar aquele paletó cinza-chumbo vindo a toda velocidade na sua direção, deixe ele passar.

Mas o que mais eu admiro é a sua nobreza. Como são nobres os bem-sucedidos! Uma nobreza profunda, de pessoas que entenderam as verdadeiras importâncias da vida, e transmitem isso a você com um olhar sublime.

E quando penso naquele campeão bem-sucedido, me lembro de uma música dos Titãs:

“Bichos Escrotos
Saiam dos esgotos
Bichos Escrotos
Venham enfeitar
Meu lar!
Meu jantar!
Meu nobre paladar!…”

Síndrome do Arrebatamento

Eu descobri que eu sofro de Síndrome do Arrebatamento.

Tantos anos na Igreja ouvindo “cuidaaado, a qualquer momento você pode ser deixado pra trás, cuidaaaadoo” (tente imaginar isso na voz do Cid Moreira), me geraram uma espécie de Fobia.

Por exemplo, quando alguém sai do recinto em que eu estou, mas eu não percebi ela saindo, e daí eu vou procurá-la e ela não está lá, pronto! Na mesma hora eu já penso “Meu Deus será que ele foi arrebatado?”

E aí eu já começo a fazer inúmeras comparações. Porque ela foi arrebatada e eu não? Porque Deus quis aquela pessoa e não me quis? Eu era tão ruim assim?

Um dia desses eu podia jurar que vi meu chefe na sala dele. Daí eu levantei pra ir falar com ele, e puft, o cara tinha sumido. É claro que eu pensei que ele foi arrebatado, é assim que funciona a Síndrome. Eu me apavorei. Deus escolheu meu chefe e me deixou pra trás?

Segundos depois o cara saiu do banheiro e eu respirei aliviado.

Egoísmo e Hipocrisia

Li recentemente uma notícia muito curiosa. Uma professora de um colégio britânico católico  foi julgada e condenada por assediar sexualmente um aluno da escola em que dava aula. A professora tem 24 anos, e o aluno 14.

Segundo a seção de notícias da UOL, onde a notícia foi publicada:

“A professora recebeu uma sentença de seis meses de prisão com suspensão condicional, o que significa que ela não terá de cumprir a pena a não ser que cometa outra infração nos próximos dois anos, e foi incluída na lista de agressores sexuais do país por sete anos.”

A notícia cita que a professora confessou os fatos diante do juiz, dizendo que havia ficado emocionalmente abalada por haver terminado um relacionamento, e começou a assediar o aluno.

Em toda essa situação, uma coisa muito curiosa foi a fala do juiz para a ré, ao definir sua conclusão sobre ela:

“O que está muito claro, infelizmente, é que naquele momento você só poderia ser vista como uma pessoa egoísta e hipócrita … “,” … por um lado, afirmando ser extremamente religiosa, com base na sua fé católica, e atuando como professora, ensinando educação religiosa para crianças. E por outro, alguém com um longo relacionamento com um homem que ficou ao seu lado, que a pediu em noivado e mais tarde se casou com você, enquanto você tinha um caso escondido e então, pelo que li no relatório, você achou o fim do relacionamento com essa pessoa tão difícil que permitiu que isso, de alguma forma, afetasse seu comportamento com esse jovem menino.”

Eu me pergunto: essa professora era egoísta e hipócrita porque enviou SMS com conteúdo sexual para um aluno, ou porque ela fez isso sendo uma pessoa que professava uma fé religiosa, e era professora de religião?

Sem dúvida o juiz não a condenou a seis meses de prisão por ser hipócrita, mas sim por ter cometido um crime, o de assédio sexual a menores de idade. Mas a conclusão pessoal dele a respeito do caráter da professora me impressionou.

Me impressiona a facilidade com que tiramos conclusões sobre uma coisa tão difícil de definir como é o caso do caráter de alguém.

Eu me pergunto: se a pessoa fosse uma atriz pornô, ou uma pessoa da mídia constantemente envolvida em escândalos sexuais, ela seria classificada como egoísta e hipócrita? Pense, e veremos que provavelmente não.

E neste caso, quem estaria sendo hipócrita?

A notícia encontra-se em http://noticias.uol.com.br/bbc/2011/11/01/professora-de-religiao-e-condenada-apos-mais-de-200-torpedos-para-aluno.jhtm, eu recomendo a leitura!