Síndrome do Arrebatamento

Eu descobri que eu sofro de Síndrome do Arrebatamento.

Tantos anos na Igreja ouvindo “cuidaaado, a qualquer momento você pode ser deixado pra trás, cuidaaaadoo” (tente imaginar isso na voz do Cid Moreira), me geraram uma espécie de Fobia.

Por exemplo, quando alguém sai do recinto em que eu estou, mas eu não percebi ela saindo, e daí eu vou procurá-la e ela não está lá, pronto! Na mesma hora eu já penso “Meu Deus será que ele foi arrebatado?”

E aí eu já começo a fazer inúmeras comparações. Porque ela foi arrebatada e eu não? Porque Deus quis aquela pessoa e não me quis? Eu era tão ruim assim?

Um dia desses eu podia jurar que vi meu chefe na sala dele. Daí eu levantei pra ir falar com ele, e puft, o cara tinha sumido. É claro que eu pensei que ele foi arrebatado, é assim que funciona a Síndrome. Eu me apavorei. Deus escolheu meu chefe e me deixou pra trás?

Segundos depois o cara saiu do banheiro e eu respirei aliviado.

O Aprendiz

– Acorde! – ele ouviu seu padastro gritar. – Mas que menino preguiçoso!

João era aprendiz de ferreiro. Na sua cidade, seu padastro era um dos poucos ferreiros que sabia construir espadas, elmos e armaduras. Porque um dos poucos? Sua terra natal havia sido invadida por um povo muito poderoso. E este povo não via com bons olhos as pessoas que sabiam construir armas, principalmente armas que poderiam ser usadas por pessoas rebeldes, e o seu povo não era considerado o povo mais dócil da região.

João era apenas um menino, tinha por volta de doze anos de idade, e estava começando a entender melhor o seu ofício. Ali na sua terra, um menino sempre seguia no ofício de sua família. Seu padastro era obrigado a fabricar armas para o invasor. E apenas por causa disso, eles tinham conseguido manter sua casa. As outras pessoas olhavam para eles com um certo ar de desconfiança. Todos sabiam que eles eram obrigados a fazer isso, mas não gostavam muito deles mesmo assim.

Ele não gostava de fabricar armas. Não via graça naquilo. Com seu pensamento limitado, João acreditava que era muito melhor gastar as horas de seu trabalho em coisas mais produtivas.  Apesar de ser ainda um garoto, João tinha uma mente muito viva, e estava sempre pensando em maneiras de melhorar o mundo ao seu redor. Não via a menor graça em produzir espadas, e morria de medo de pensar que algum dia, eles todos poderiam acabar morrendo com as espadas que eles mesmos produziram.

– Está pensando em que garoto? – perguntou o velho padrasto, dando-lhe um tapa na nuca – pare de enrolar e vai aquecer a forja!

Sua mãe havia morrido há alguns anos, quando os invasores chegaram. Ela era uma costureira muito famosa que sabia fazer todo tipo de malhas, mas se recusou a trabalhar para eles e pagou por isso com a vida, quando João ainda era uma criança. Seu pai, ele nunca soube quem foi. Agora ele estava obrigado a morar com este homem duro e mal educado, que não sabia dizer uma palavra agradável para João. Pelo menos ele me mantém vivo, pensava João. Engoliu rapidamente o pedaço de pão seco, ajudando com um pouco de suco de figo envelhecido, e correu para o seu trabalho.

Ainda trabalhando na forja, João deixou cair dentro dela um velho escudo, que estava ali para ser consertado.

– Mas você não sabe fazer nada direito! – veio o grito do homem. João sentiu seu coração gelar, pois já sabia o que vinha na sequência. Toda vez que fazia alguma coisa errada, seu padrasto não o perdoava.

Dolorido pela surra que havia levado, João continuou seu dia de trabalho, até terminar esgotado. Algumas horas mais tarde o Sol começou a se por, e estava começando a parte do dia que mais gostava. O velho iria se abraçar com suas garrafas de vinho, e desmaiar até o dia seguinte, e João teria a forja para trabalhar em seus projetos.

Foi até sua cama, e pegou os últimos objetos em que andara trabalhando. João tinha o sonho de estender uma grande rede ao lado de sua casa, e para segurar as redes ele andava fazendo pregos artesanais, com os restos de ferro que encontrava.

Mas como tudo o que fazia, não era qualquer tipo de prego. Eram pregos especiais, cuidadosamente fabricados com o maior cuidado. Tinha alguns detalhes em alto relevo, a marca registrada do pequeno ferreiro João. Eram pregos altos e grossos. Poderia estender uma longa rede de tecidos, que daria lugar para muita gente.

Mas neste dia, por algum motivo que ele desconhecia, o padrasto não foi se abraçar com suas garrafas de vinho.

– O que é isso, seu infeliz!? – gritou o padrasto.

– São… são pregos… Eu pensei em armar uma rede e… – não houve tempo para continuar. O tapa que voou na cara de João foi tão forte, que o menino foi parar de um lado, e seus pregos saíram voando, caindo na rua em frente a porta da sua casa.

Algumas pessoas que andavam por ali levantaram a cabeça, e depois seguiram com seus afazeres, como se nada tivesse acontecido. Um homem estranho, com uma barba fina e olhos de gatuno se aproximou rapidamente para onde os pregos haviam rolado. Examinou os pregos, deu um sorriso zombeteiro, fitou os olhos de João e foi embora.

– Suma daqui! – gritou o velho. João saiu correndo e voltou para seu quarto chorando, zonzo com o tabefe que havia levado, e muito triste.

Alguns dias se passaram. João continuava em seus afazeres diárias, sempre pensando em formas de usar a forja para seus projetos. Já havia levado mais alguns tapas, mas a cada dia que passava, ficava mais resistente a eles.

De repente, ouviu um barulho, e percebeu que as pessoas ao longo da rua estavam começando a se aglomerar, em uma grande multidão. Alguns gritavam, outros choravam, e João não conseguia entender o que estava acontecendo. Uma comitiva dos soldados invasores, vinha trazendo um homem. Eles abriam caminho por entre a multidão, e iriam passar bem na porta de João.

Havia tanta gente em volta que João não conseguia ver o que estava acontecendo. Entrou em casa, e subiu no telhado, para ver melhor. No meio dos soldados vinha um homem, carregando um grande tronco de madeira, em formato de cruz. João conseguiu perceber que era um homem da sua terra. Mas o que teria acontecido?

João desceu e acompanhou a multidão até um monte, mais afastado da cidade. Foi se aproximando do alto do monte até que chegou na hora em que viram os soldados, pegando alguns pregos, e pregando aquele homem à cruz. O menino caiu de joelhos no chão, quando percebeu a sua marca registrada nos pregos.

– O que está acontecendo? – perguntou João, deixando as lágrimas fluírem do seu rosto.

De uma forma sobrenatural, ele ouviu o homem sendo pregado falar com ele. Por um momento todas as vozes silenciaram. Todos estavam ali, a multidão gritando, alguns rindo, outros chorando, e os soldados batendo os martelos, mas tudo era silêncio, com exceção da voz do homem. Uma voz profunda, que disse:

– O que está acontecendo, pequeno João, é um momento muito belo. Um momento triste e difícil, mas muito belo. Neste exato momento, a liberdade está renascendo. A esperança está rompendo, e o Sol está raiando sobre os homens. Este é um momento especial, e tudo nele precisava ser especial. Até mesmo estes pregos.

– Você construiu esses pregos – continuou o homem que estava sendo pregado – com o suor do seu rosto, com suas lágrimas, e algumas vezes com sangue. E eu os escolhi para usar neste momento, onde meu suor, lágrimas e meu sangue, estão se juntando aos seus.

O homem disse muitas outras coisas para João, que ficou ali parado, ouvindo, como se tudo o que ele sempre quisesse fazer em toda sua vida fosse ouvir as palavras daquele homem. Depois que tudo havia sido consumado, voltou para sua casa, para seu padrasto, e para sua vida. Voltou, mas voltou diferente.

O  que aquele homem fez havia dado sentido a todo seu passado, a tudo o que ele havia vivido até ali, e a tudo o que ele ainda iria viver.