Sopa ou Churrasco?

Estive lendo um dia desses um texto que me deixou muito intrigado.

Eu acho muito divertido quando consigo detectar certos mistérios escondidos nos textos bíblicos e nessas horas ler a bíblia se torna uma aventura, uma exploração de terras desconhecidas.

O texto fala de quando Eliseu estava com seus discípulos em Israel, durante um tempo de fome, e ele manda um de seus servos buscar ingredientes para fazer uma sopa. O servo pega os ingredientes errados, e acaba jogando veneno na sopa. Eliseu então intervém e cura a sopa milagrosamente de seu veneno.

Eis o texto:

2 Reis 4:38-41

“E, voltando Eliseu a Gilgal, havia fome naquela terra, e os filhos dos profetas estavam assentados na sua presença; e disse ao seu servo: Põe a panela grande ao lume, e faze um caldo de ervas para os filhos dos profetas.
Então um deles saiu ao campo a apanhar ervas, e achou uma parra brava, e colheu dela enchendo a sua capa de colocíntidas; e veio, e as cortou na panela do caldo; porque não as conheciam.
Assim deram de comer para os homens. E sucedeu que, comendo eles daquele caldo, clamaram e disseram: Homem de Deus, há morte na panela. Não puderam comer.
Porém ele disse: Trazei farinha. E deitou-a na panela, e disse: Dai de comer ao povo. E já não havia mal nenhum na panela.”

A primeira coisa que eu percebo no texto é a revelação talvez de um principio espiritual. Revelação não no sentido de “descoberta”, pois não é um princípio novo nem desconhecido, mas no sentido de “afirmação”, ou seja, o texto reforça e encoraja o cristão a seguir um princípio básico ao atravessar suas dificuldades.

Vamos analisar o texto:

“E, voltando Eliseu a Gilgal, havia fome naquela terra, e os filhos dos profetas estavam assentados na sua presença”

Havia fome na terra. Fome aqui representa a tribulação. Havia dificuldade sobre a terra, sobre a vida das pessoas. Mas havia também esperança, pois havia a presença do homem de Deus, do profeta do Senhor.

“Os filhos dos profetas estavam na sua presença.”

Aqui se re-afirma o princípio: o melhor lugar para você estar, no tempo da tribulação, é na presença do Senhor. Aqui a presença do profeta representa a presença de Deus.

Em tempos de dificuldade, direcionamos nossas energias para todos os lados, na tentativa de solucionar nossos problemas. Talvez os filhos dos profetas pudessem estar correndo pra todos os lados, procurando comida, cavando cisternas, mas não, eles estavam assentados na presença do profeta porque sabiam que das mãos do senhor é que viria a salvação.

Mas o que mais chamou minha atenção foi o que aconteceu a seguir, e eu pretendo centralizar a mensagem desse post neste fato, vamos ver:

“e disse ao seu servo: Põe a panela grande ao lume, e faze um caldo de ervas para os filhos dos profetas. Então um deles saiu ao campo a apanhar ervas, e achou uma parra brava, e colheu dela enchendo a sua capa de colocíntidas; e veio, e as cortou na panela do caldo; porque não as conheciam.”

Muitas são as implicações por trás dessa situação, e eu fiquei muito impressionado com o que vi aqui.

Percebam primeiro que, pela linguagem utilizada fica claro que Eliseu não foi obedecido em sua solicitação, e aqui temos mais alguns princípios espirituais sendo afirmados.

Quando Eliseu ordena que se busquem os materiais para a sopa, ele ordena “ao seu servo”. Entretanto nós podemos perceber que quem foi buscar os ingredientes foi “um deles”.

Geazi era o servo de Eliseu, mas um dos outros seguidores de Eliseu, um dos filhos dos profetas foi buscar as ervas. Tomo aqui a liberdade de estipular que Geazi teve dificuldades de obedecer. Geazi não quis buscar ervas para uma sopa, e eu me pergunto: porque?

Um dos filhos dos profetas disse “deixa comigo”, e ao tentar realizar a missão que era de Geazi, ele trouxe ervas envenenadas. Em um primeiro momento houve pânico. Então Eliseu, calmamente realiza o milagre, e todos podem comer a sopa.

Isso traz alguns princípios à tona:

Quando você deixa de realizar a missão que foi dada por Deus, isso não impede que outra pessoa realize essa missão em seu lugar, pois a vontade de Deus, com ou sem você, sempre será realizada.

Os problemas ou situações decorrentes da realização de uma missão, não acontecem porque a missão foi realizada da forma errada, mas porque a missão que Deus te dá serve para te ensinar alguma coisa.

Talvez se Geazi tivesse ido ele teria sido atacado por um leão, talvez se outro filho dos profetas tivesse ido ele teria sido assaltado por ladrões, e em todas essas situações a mão de Deus teria agido com o objetivo de cumprir a ordem do profeta: fazer a sopa.

Então não podemos assumir que o problema da sopa envenenada aconteceu porque Geazi se recusou a obedecer, pois isso seria atribuir a Geazi, ou a qualquer um de nós, a capacidade de prejudicar os planos de Deus.

Os planos de Deus nunca serão prejudicados por ninguém. O que aconteceu simplesmente, foi que Geazi abriu mão de seu aprendizado. Em vez disso um dos filhos dos profetas, que se habilitou, teve o seu aprendizado.

Ele aprendeu, cresceu, evoluiu, se tornou uma pessoa melhor nesse processo.

Isso traz outro princípio à luz: quando você se recusa a realizar uma missão dada por Deus, a única obra que você está prejudicando é aquela que ocorre na sua vida.

E pra encerrar, eu vou brincar um pouco, inventando coisas sobre Geazi. Ele estava ficando um tanto quanto exigente. Ele já havia visto Eliseu realizar os mais incríveis milagres.

Isso fez com que Geazi se tornasse presunçoso, no sentido de “cheio de pretensões”. Ele tentou fazer uma “pressão” em Eliseu. Porque afinal de contas, ele tinha acabado de ver Eliseu fazer multiplicar o azeite. E há pouco tempo, nestes mesmos tempos de fome, ele viu Eliseu fazer aparecer um urso por causa de uma provocação de vários garotos.

Ora, pensou Geazi, sopa? Porque temos que tomar sopa se Eliseu poderia fazer aparecer um urso aqui para fazermos um churrasco, e ainda temperá-lo com azeite?

Geazi havia presenciado tantos milagres, que agora se sentia contrariado quando o milagre que acontecia não era o de sua preferência, e muitas vezes nós também agimos assim.

Geazi estava sendo iludido por uma falsa sensação de escolha. Nós também muitas vezes nos deixamos iludir por uma falsa sensação de escolha.

Mas isso porque às vezes nós estamos com o foco errado. Ao realizar a missão dada por Deus nós nos consideramos os autores da obra, em vez de sermos gratos pelo privilégio do aprendizado oriundo da realização.

Quando você achar que pode escolher entre a sopa ou o churrasco, não esqueça que na verdade você está escolhendo entre a sopa ou a fome.

Valores Cristãos?

Certa vez, ouvi de um evangélico a seguinte observação:

“Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.”

Essa é uma observação muito comum no meio religioso, quando um cristão/evangélico precisa justificar seus julgamentos sobre determinado assunto.

A frase que estou citando surgiu quando estávamos em uma conversa sobre homossexualidade. O argumento dessa pessoa veio com base nessa afirmação, onde ela buscou defender que Deus ama a todos, inclusive os homossexuais, mas não ama e nem pode compactuar com sua “conduta pecaminosa”.

Uma das coisas que me deixou mais curioso foi: Onde está esse versículo? Afinal, os cristãos/evangélicos se orgulham por ter suas atitudes baseadas “na palavra”. Infelizmente porém, esse versículo não existe e essa é apenas mais uma interpretação das escrituras que é amplamente utilizada pelos evangélicos sem questionamentos.

De qualquer maneira, existe algo nessa afirmação que chama minha atenção, quer o versículo exista ou não.

Observe cuidadosamente a situação e a frase.

“Eu não aceito a homossexualidade, porque a Bíblia diz que isso é errado. Eu não odeio o homossexual, eu não tenho raiva e nem preconceitos contra o homossexual. Eu apenas não compactuo com suas ações pecaminosas. Deus ama o pecador, mas odeia o pecado.”

Quando você usa algo ou alguém para defender uma posição pessoal, você obrigatoriamente está pegando emprestado para si mesmo o mesmo status desse algo ou alguém. Você está se colocando em pé de igualdade.  No caso acima, a pessoa está obrigatoriamente se colocando no mesmo patamar de Deus. Assim como Deus, eu também amo o pecador, e odeio o pecado.

E qual o problema? Não posso querer agir como meu Pai? Se você for evangélico ou cristão provavelmente está se perguntando isso.

E é neste ponto em que eu começo a me perguntar muitas coisas.

Existe todo um enorme conjunto de atitudes divinas, que são consideradas difíceis demais para serem imitadas. Deus, por exemplo, amou a todos os seres humanos acima de qualquer coisa, ao ponto de entregar seu único filho. Isso é muito difícil de fazer.

Deus é justo, e age com absoluta e total imparcialidade em qualquer situação. Deus é paciente, amoroso, compreensivo. Deus não faz as coisas esperando algo em troca, ele se importa com a sua felicidade. Deus sempre estende a mão ao aflito, sempre estende a mão ao pecador e ao necessitado. Isso tudo é muito difícil, para não dizer quase impossível de fazer.

Porém, em compensação, algumas das atitudes de Deus são muito fáceis de imitar. Deus odeia o pecado, então eu também odeio o pecado. Não posso ver um pecador na minha frente. Fico admirado quando as pesssoas pecam. Comento esse assunto como todos os meus irmãos santos em Cristo.

Deus não se envolve com o pecado, então eu também não me assento na roda dos escarnecedores. Não me misturo com os lascivos, idólatras e beberrões. Deus odeia o pecado, eu também odeio o pecado. Deus ama quem dá com alegria, eu também amo quem dá com alegria, me impressiono quando descubro que certo irmão deu uma generosa quantia para a igreja, quanta santidade! Deus odeia a mentira, eu também odeio a mentira. Se Deus odeia as obras da carne, eu também odeio as obras da carne.

Mas isso só se for na segunda ou terceira pessoa.

Eu jamais considero meus atos como atos pecaminosos. Aquele CDs e DVDs piratas que estão abarrotando as minhas estantes, não me incomodam. Aquelas mentirinhas que eu contei ao telefone não me incomoda. Aquele dinheirinho que eu deixo na carteira caso o guarda de trânsito pare o meu carro também não. Aquela visitinha que eu fiz naquele site pornográfico foi apenas um pequeno deslize.

O fato de eu ficar fofocando sobre a vida de outras pessoas, fazendo julgamentos e sentenciando as pessoas, também não me incomoda. O que me incomoda é saber que meu irmão pecou.

É incrível como um cristão/evangélico, que se diz seguidor de um mestre que sofreu todos os tipos de injustiça por amor das pessoas, levanta bandeiras com o nome dele escrito, veste camisetas com o nome dele escrito, frequenta comunidades com o nome desse mestre gravado em legras garrafais nas paredes, na primeira oportunidade que tem, se revolta contra pessoas que cometeram pecados, e as julga e sentencia com a velocidade da luz.

Isso é claramente um sinal da hipocrisia que predomina nesse meio.

Um verdadeiro seguidor de um mestre que jamais condenou ninguém, não condenaria ninguém. Um seguidor daquele que sofreu injustiças e ficou calado, sofreria injustiças e ficaria calado. Um seguidor daquele que quando alguém pedia emprestado ele dava, faria o mesmo.

Um seguidor daquele que amou a todos, também amaria. Um seguidor daquele que andava com as pessoas que eram consideradas da pior espécie, porque sempre acreditava no potencial delas em se tornarem pessoas melhores, faria o mesmo.

Mas  hoje é motivo de escândalo no meio evangélico, alguém pecar.

Os irmãos e irmãs da igreja, ficam escandalizados, levam as mãos à boca e comentam pelos corredores. Hipócritas.

E seria bom se parasse por aí, mas não é só isso.

A santidade desses irmãos é tão prejudicada pelo pecado alheio, que eles não conseguem nem louvar ao Senhor, veja só. Eles não suportam essa situação de pecado, e saem da igreja, procurando um lugar onde a santidade deles não seja tão atingida. Quanta santidade! Quanta unção! Quando poder do Espírito!

O pecado alheio incomoda tanto esses irmãos santificados, que para eles se torna até difícil buscar ao Senhor, num meio tão corrompido. Hipócritas.

Enquanto isso, as pessoas continuam precisando de ajuda, precisando ouvir uma palavra amiga, precisando de apoio em suas vidas. Precisando de alguém que lhes diga que tudo vai dar certo. Precisando de uma atitude pequena, mas que seja positiva.

Mas o cristão de hoje em dia está preocupado demais em manter sua estrutura religiosa funcionando, e não tem tempo de se preocupar com as pessoas e com o que elas estão sentindo. O meio evangélico é um meio que vive e sobrevive de aparências, se alimenta de status e reputação, e é tão vazio quanto a casca de um besouro.

Um meio onde as pessoas escondem seus pecados evidenciando os pecados dos outros.

Mas não podemos condenar as pessoas por agirem assim. Em primeiro lugar, porque não podemos condenar ninguém a nada. Em segundo lugar, porque não podemos ensinar durante décadas toda uma geração uma série de conceitos e valores errados, para depois criticar as pessoas que agora aprenderam e praticam esses valores.

Está na hora de pastores e líderes começarem a ensinar os valores corretos.

 

Hipocrisia: A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, idéias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. (Fonte: Wikipédia).